Quando um homem espera para dormir com você

O que você espera de um homem? O que você espera de um homem? Que ele seja homem, Em pensamento, atitudes e fala. Espero que quando ande comigo Seja de mãos dadas. Espero que me apresente aos amigos Com um sorriso de orgulho enquanto fala. Espero que ele me ampare Quando eu estiver cansada. Espero que me incentive, com palavras amigas e um sorriso na cara. Espero que me apoie Quando eu ... Como conquistar um homem casado, nunca se entregue de primeira, não falo sexualmente, e sim emocionalmente.Não saia com ele uma noite, e fique imaginando ele largar tudo para ficar com você. Proteja o seu coração! O homem para te levar pra cama, envia até buque de rosas e chocolates no seu trabalho. Se fazer de difícil é uma ótima maneira de chamar a atenção de um homem e fazer com que ele veja que você vale a pena. Porém, essa é uma questão delicada: você deve parecer misteriosa e ocupada, mas não a ponto de ele pensar que conseguir um encontro com você seja quase impossível. A Alladin era filho de um pobre alfaiate e de uma costureira. Certo dia seu pai morreu e sua mãe teve que costurar dia e noite para sustentar Alladin. Quando Alladin fez 15 anos, estava estava conversando com alguns amigos, quando um homem estranho e que era mágico, perguntou a Alladin: 'Meu garoto, você não é filho do alfaiate?' Quando um homem pergunta como você dorme, o que ele quer como resposta? 1. ladyzinha. ... você responderia a essa pergunta com uma foto 'vestida' (ou não) para dormir hahaha 0 comentários curtir (2) 0 anônimo 18/02/2017 00h11. Acredito que o que veste porque não vejo outro sentido subentendido nessa pergunta hahahaha ... Ele espera ouvir ... Quando você menos espera.Um homem que está tentando para dormir com você irá dizer-lhe que ele te ama quando você espera para ouvir, mas se um homem realmente te ama, não diga quando você espera para ouvir, mas no momento em que você menos espera ele. Ele diz isso seriamente.O tom de sua voz pode revelar a seriedade de suas palavras.

Historico de merdas até 2014

2020.09.24 05:14 HondyS Historico de merdas até 2014

Não tem jeito poético ou "bom" de começar a falar sobre a própria vida como se ela fosse algo surpreendentemente interessante, ou triste.
Então vou começar do começo:
Algum dia no ano de 2007
Quando se trata de "primeira memória" eu não sei o que vem na cabeça das pessoas, por isso eu acho importante citar a minha memória mais lúcida e mais antiga, antes que ela suma da minha cabeça que nem tudo que veio na sequência dela.
Me lembro de ter sido a primeira e última vez que me vi brincando com minha mãe.
Estavamos no terreiro da casa da minha avó, brincando na terra com alguns carros que eu tinha, ela sentada num tijolo e eu sentado no chão, que era basicamente terra com mato.
Me lembro de vê-la sorrir antes de ser chamada por minha avó para resolver alguma coisa, ela me deixou brincando sozinho.
Aquela foi a primeira vez que eu me senti amado, mesmo que por pouco tempo. Eu queria muito lembrar de muito antes disso, e na verdade até lembro, mas são fragmentos distorcidos demais para se chamar de "lembrança" de fato.
2008
Considero esse ano o mais marcante da minha vida, por alguma razão eu sinto que MUUUIITA coisa aconteceu em 2008...
Eu lembro de ter amigos, de brincar com eles todos os dias, de me sentir trocado quando eles brincavam com outras crianças, de me sentir sozinho quando minha mãe ia trabalhar na cidade vizinha..
Eu sentia tanta coisa pra um moleque da minha idade, mas todos os sentimentos tristes iam embora quando algo feliz acontecia. Lembro de ter ganhado uma bola gigante que um cara passou vendendo, com um suporte de ferro gigante junto de um carrinho, haviam dezenas de bolas iguais e eu havia ganhado uma delas. Meu avô havia me dado.
Lembro dele ser muito bom pra mim, ele é assim com todos os netos dele, e se eu possuo uma memória ruim daquela época com ele eu prefiro esquecer, provavelmente eu fui danado demais e mereci levar algumas reclamações, ou talvez uma chinelada... Não sei dizer o que realmente aconteceu, mas como uma criança eu nunca deixei de amar ninguém por isso, as vezes passamos do limite em sermos chatos né.
Hoje em dia eu costumo olhar do passado e culpar essa criação como a principal fonte dos meus sentimentos reprimidos, do meu ódio.
Talvez tenha sido isso mesmo, mas 2008 não foi so onde meu ódio nasceu. 2008 foi quando eu descobri os principais sentimentos humanos e a natureza deles. Eu descobri que gostava de Garotas ao me aproximar da minha prima bobona. Eu percebi que eu estaria sempre sozinho se eu fosse depender dos meus amigos. Eu aprendi que eu não devia confiar nem mesmo em quem dizia ser minha família. Também aprendi o que é perder alguem... e aprendi que quem tem um pai presente, tem muita sorte.
Muito mais coisa aconteceu em 2008, se eu fosse fazer um "não-resumo" de tudo, seria grande demais, vamos pular para os anos seguintes que originaram meus principais traumas psicológicos e físicos.
2010 - 2014
Estava tudo ocorrendo normalmente e eu aparentemente cresceria como uma criança normal e fragilizada devido a criação precária em relação ao meu psicológico, pois para minha mãe, só ter comida na mesa bastava, e eu não culpo ela, que pais se importam com a saúde psicológica dos filhos? Se você não é um aleijado, eles não estão nem ai.
Mãe achou que era uma boa ideia por um homem na nossa vida depois que meu pai parou de ser uma opção definitiva. Foi ai que conheci meu futuro padrasto e fruto do meu ódio. Vamos chama-lo de "Merdastro" em homenagem a Chloe.
(Aquela personagem de life is strange, que você talvez conheça)
Meu Merdastro fisgou minha mãe como uma garrafa de farofa atraí uma Piaba. Ela mal conheceu ele e já estava namorando, não demorou muito pra eles se juntarem numa casa só e minha vida virar um inferno.
Como todo Merdastro, ele começou amigável no começo, me tratando como se eu fosse o irmão mais novo dele, afinal ele só tinha 18 anos, era quase a idade pra ser meu irmão mesmo. Mas com o passar do tempo ele revelou sua verdadeira face.
Ele era um filho da puta que implicava por qualquer motivo e que enchia a cara sempre que podia pra fazer confusão dentro de casa, e quando ele brigava comigo, mãe estava sempre do lado dele pra apoia-lo. Isso me feria profundamente pois eu amava ela demais, e vê-la me ignorar para seguir aquele maníaco me fazia ficar muito pistola. Um dia por que eu não parava de chorar devido a ela não me deixar sair de casa, ela resolveu que seria uma boa ideia me bater com uma corda molhada, isso por que meu padrasto me mandou calar a boca diversas vezes e eu continuei chorando.
Talvez para ele não me bater, ela se colocou no lugar. Talvez ela se arrependa, pois ela nega até hoje e diz que eu inventei isso, porém NÃO.
Nesse dia depois de levar uma surra e ficar com as costas marcadas, eu pulei a janela de casa e em seguida o muro, corri pra casa da minha avó em busca de abrigo e mãe foi me buscar logo depois, ela discutiu com meu avô mas logo isso passou batido como qualquer problema familiar comum.
Os anos foram passando e meu padrasto se tornava ainda mais cuzão, eu evitava ficar muito tempo em casa, então eu tava sempre na rua brincando com meus amigos, fazendo o possível pra me divertir antes de ter que encarar um inferno quando voltasse pra casa. Por sorte meu Merdastro era Crediarista então uma parte do mês eu só tinha que aguentar mãe no meu pé, e ela era mais amorosa quando ele não estava por perto, mais calma... É isso que chamam de amor, porra?
Eu aproveitava pra caralho brincando com meus amigos na época, vou chama-los por codinomes pra evitar expor eles.
Eramos cinco no total:
Absorvente
Macaco
Tijela
Hentai
Cachorra
SIM VADIA ESSA ERA MINHA CREW
Iamos pra de trás da casa de Hentai para brincarmos nos cajueiros, que era tipo mato, arvores fáceis de subir, nosso esconderijo e base do "clube", chamemos assim. Naquela época eramos todos crianças burras e ingênuas, passavamos o dia e a noite toda fazendo merda. Já ficamos presos em cima de uma arvore por que um boi ficou em baixo dela e não nos deixou descer. Já fizemos armas com canos e bexigas, essas que atiravam feijão. Lembro de mãe ficar puta comigo por que eu desperdiçada um saco de feijão brincando de "call of duty" na rua com eles, já quase ceguei Macaco com um tiro de feijão na fuça, bons tempos.
Eu poderia contar como conheci cada um deles mas eu acho isso bem chato então vamos de timeskip.
Um ou dois anos depois de tudo isso, meu padrasto chegou bêbado em casa e quis dar uma surra em mãe na minha frente, mas ele estava tão tonto que só quebrou uma mesa de vidro em vez disso. Mãe usou alguma artimanha de mulher (vocês sabem o que é) e conseguiu leva-lo pro quarto, fazendo-o dormir.
Logo depois disso nois dois pulamos a janela e fomos ate a casa da minha avó procurar ajuda. No dia seguinte ele foi preso.
Porém minha alegria durou pouco, mãe retirou a queixa um dia depois. Ela se separou dele depois disso.
Nos mudamos para uma casa diferente e aparentemente mãe havia se tornado uma solteirona cachaceira cheia de amigas piriguetes, essa época foi reveladora pra mim em quesito PUTARIA, pois essas amigas de mãe falavam muita merda e as vezes eu era obrigado a ouvir. Uma delas vendia produtos eróticos, tipo lubrificantes, calcinhas comestíveis e remédios para velhos-casados-broxas poderem levantar o pinto. MEU DEUS COMO ESSAS COISAS (exceto o lubrificante) eram vergonha alheia.
Até ai tudo bem, mãe saia para beber e me levava junto pra todo bar e festa, que eu soubesse ela não se envolvia com ninguém. Por que... ADVINHA, PLOT TWIST: ela ainda gostava do Merdastro.
Uma noite ela resolveu trazer ele pra nossa vida de novo, quando eu implorei chorando pra ela não fazer isso, ela me mandou calar a boca. E subiu com ele pra fazer vocês sabem o que. E eu tive que me contentar com o barulho deles e meu choro de fundo.
Foi nessa época que meu ódio começou a ser cultivado pra valer.
Não acabou ainda, até 2014 tem chão...
Não citei antes, mas um problema me incomodava já fazia um tempo. Eu tinha um tumor ósseo na lateral do meu joelho, ele aos poucos estava me impedindo de ser alguém fisicamente ativo, por "sorte" ele era benigno e não iria se espalhar e me matar. E também por "sorte", era muito raro e ninguém sabia como resolver. O diagnostico foi que eu não poderia retira-lo até parar de crescer, pois iria deixar minha perna maior que a outra. Eu estava condenado a viver com aquilo me limitando por alguns anos, e foi ai que perdi minha única forma de escapar de casa pra me divertir.
Sem poder correr, pular, chutar ou escalar, eu vivia dentro de casa jogando no computador e aguentando os surtos de mãe.
Sempre que eu tentava ignorar meu tumor e correr, eu sentia uma forte dor aguda, como se alguem tivesse acabado de moer meu joelho num triturador. Era horrível e não desejo isso pra ninguém.
Pra piorar tudo, não passamos um ano sem o babaca, e não bastou pra mãe transar com ele escondido, ela resolveu aceitar o pedido de desculpa dele e repensar o relacionamento dos dois.
Ele levou a gente numa pizzaria para se desculpar e pedir perdão. Ele chorou pra gente enquanto prometia melhorar. Enquanto mãe chorava com ele, tudo que eu fazia era observar com um olhar de "Pff, patéticos"
Como eu não tinha opinião ali, Não importava o que eu fizesse, ela iria aceita-lo de volta. Quando eu cheguei em casa depois daquilo eu gritei muito com ela.
Ela me disse: "quando você amar alguem um dia, você vai me entender"
Isso pode ser qualquer coisa, por mais estúpida que seja, mas amor não era. Infelizmente por uma decisão egoista dela, eu seria obrigado a passar pelo exato mesmo inferno de novo.
Mais tarde em 2014
Ano desgraçado né? Espera só.
Algum dia eu continuo isso.
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2020.06.08 19:02 Coming_Back_To_Life Vampiro: A Máscara backstory de personagem

Olá pessoal, gostaria de compartilhar o backstory do meu personagem atual de Vampiro a Máscara. A nossa campanha se passa nos dias atuais, em Brasília, e eu resolvi fazer um personagem que está nessas terras a um tempinho. Espero que curtam.
Eu morava em uma cidade chamada Campo Formoso, no estado de Goiás. Uma cidade pequena, de gente simples, que sempre existiu na base da esperança do progresso que viria junto da prometida linha do trem. Eu vivi até morrer e não vim trem algum.
Minha família era pequena, mas grande o bastante para ter dificuldade para se esconder da sombra da fome e das necessidades. Desde criança fui ensinado a caçar no cerrado, as vezes na pedrada ou paulada, as vezes na surdina para não despertar o bicho ou o seu dono.
Quando passei dos dez anos ganhei minha primeira carabina, paga com queijo feito de leite de vaca magra. Não havia privilégio de errar os tiros, já que bala não dá em árvore, mas árvore dá em criança que erra o tiro, espanta a caça, chama a fome e desperdiça a munição.
Nos dias em que a caça era das boas, chegada era a hora de colocar em prática outra habilidade tão importante quanto conseguir caça de sobra: Vender, ainda que as vezes para quem não precise ou não queira comprar. Uma conversa mais próxima, uns trejeitos reconstituindo como foi a caçada na frente do comprador e as vezes até o cumprimentar carismático com as duas mãos juntas, tudo pela família.
Passando o tempo e o tempo passando, com os anos em meio ao cerrado também aprendi a diferenciar o que faz bem e dá energia daquilo que faz a pessoa desistir de tentar pôr hoje. Nem toda raiz forte faz mal e com algumas folhas maceradas se faz um chá e do bagaço curativo para feridas.
Por volta dos meus 17 anos chegou em Campo Formoso a pessoa que definiria o meu futuro de forma definitiva, para bem e para mal.
Miguel dos Anjos, um homem de meia idade, mas com ar jovial. Boa forma física, cabelos castanhos-fogo e vestido como quem não espera visitas. Logo se instalou em uma casa de tábuas de Mutambo no fim da segunda rua depois da avenida principal. A casa mais parecia uma morada de João de Barro, sem muito conforto por dentro e luz do sol somente por fora. Não tinha cadeiras, ou confortos básicos, talvez fosse assim que as pessoas fizessem em outras cidades. Vai saber. Dentre as poucas posses, ele tinha um par de luvas grandes e vermelhas, com cadarços brancos, boxe. Eram luvas de boxe. Eu não sabia o que isso queria dizer, mas não via a hora de saber.
Poucos dias depois da sua chegada à cidade, nós passamos a conviver e como foi fácil nos tornarmos amigos. Parece que caímos como uma luva um para o outro. Logo eu comecei a aprender a lutar, parecia que todos os sacrifícios e dificuldades da vida serviram para tornar mais fácil a minha habilidade para esse esporte. Em pouco tempo passamos a treinar todos os dias, enquanto dividíamos histórias sobre o cerrado e as coisas que andam pelo mato, falávamos até sobre lendas que outras pessoas da cidade sonhavam em esquecer.
Os anos passaram. Cada vez eu tinha de me preocupar menos com caçar ou barganhar no mercadinho da cidade pelo pão de cada dia. Boxe, o caminho para mim era o boxe.
E assim foi até o dia, muitos anos depois, da etapa regional de boxe peso-pena da cidade de Campo Formoso.
Só muito tempo depois eu descobriria a notícia a seguir, mas o importante é que eventualmente eu descobri:
Clarim Goiano
Mathias - Luvas de aço e Coração de Ouro
Mathias Oliveira venceu na noite de ontem, 22 de Junho de 1940 em Campo Formoso, a etapa regional de boxe peso-pena. A vitória suada no ringue goiano classificou o atleta para disputar o campeonato nacional.
Aquela noite seria a última em Campo Formoso, até o dia em que só existiriam noites. Depois de lutar e conseguir a vitória eu tive de ir às pressas para a rodoviária pegar o último ônibus em direção a São Paulo, consegui embarcar a tempo, mas nunca cheguei ao destino.
Quando eu desperto eu não sei onde estou e nem o que aconteceu comigo. Logo descubro que sou um monstro! Minha pele agora é fria, meus dentes parecem afiados e sinto fome de algo que nunca comi e mais do que fome, desejo.
Eu perambulo noite após noite tentando entender o que aconteceu, tentando me encontrar, mas a confusão é tanta que me perco em pensamentos e em meio todo tipo de matagal. Chama a minha atenção os diversos tipos de besta que surgem na escuridão, mas aparentemente nenhuma com coragem o bastante para se aproximar de mim.
Com o tempo aceito que agora eu sou isso...
Eventualmente eu consigo voltar pra minha cidade, entretanto ela está absolutamente abandonada.
Em busca de respostas eu acabo descobrindo na biblioteca, se é que posso chamar assim, um jornal datado de alguns anos atrás, nele a notícia: "Governador Brandão muda planos sobre ferrovia".
Certamente com essa notícia de que a ferrovia não viria mais para a cidade as pessoas largam a esperança de morar aqui e abandonam a cidade.
Desolado eu sigo em frente e chego até a minha antiga casa, quase nada foi deixado pra trás, algumas roupas rasgadas pelo chão, a parafina de várias velas e sujeira, bastante sujeira.
No meu antigo quarto eu vejo um jornal do dia seguinte da minha luta.
Na capa uma foto minha com os braços levantados comemorando a vitória, ao fundo tentando se levantar nas cordas está o meu oponente, porém eu não consigo ver o seu rosto, eu sei que está na foto, mas eu não consigo ver!
Há ainda uma outra pessoa na foto, ao fundo, na torcida que eu também não consigo ver o rosto, apenas um borrão.
Eventualmente eu sigo em frente, mas levo sempre comigo algumas coisas como lembrança da minha vida, dentre elas esse jornal.
Um dia um colega de viagem, muito talentoso na arte do desenho e pintura se impressiona com a minha história de boxeador, pelo menos com a parte que eu permiti que ele soubesse e assim ele se oferece para recriar a foto com um toque mais artístico.
No que ele faz o desenho eu consigo ver os rostos que antes apareciam borrados para mim. Eu não me lembro daqueles rostos, mas suspeito que estão ligados ao fato de que eu me tornei um vampiro.
Talvez o adversário que eu derrotei fosse um vampiro?
Apesar de a cidade ter sido abandonada, vez ou outra eu me via andando pelas redondezas, talvez a procura de um rosto familiar.
Esse desejo me foi realizado.
Certa vez enquanto observava as nuvens negras no céu, por vezes encobrindo as estrelas e a lua, fui surpreendido com uma visita inesperada.
Miguel dos Anjos, o meu antigo treinador de boxe, além da surpresa da sua presença ele também me surpreendeu a tornar algo bem claro.
Ao perceber que eu não havia chegado ao meu destino, ele se pôs a me procurar incansavelmente. Depois de duas noites me encontrou num matagal, a meio fio de distância da morte. Mesmo sabendo que o ônibus que eu havia tomado chegou ao destino, ele se sentiu tentado a procurar os destroços de qualquer que fosse o acidente em que eu havia me envolvido. O estrago era muito grande.
Ele decidiu me "salvar" e assim me transformou em um morto imortal, da morte nasceu o eu vampiro.
Ao longo dos anos ele se pôs a me ensinar o que é ser Gangrel, as leis do novo mundo e os limites dos meus novos poderes.
Eventualmente chegou a nós uma notícia que deixou Miguel extremamente transtornado, no coração do cerrado se materializaria uma nova cidade, das mais modernas, feita de rios de concreto e sem meia consideração com as terras daquele planalto. Como nenhuma flor são só espinhos, havia algo de bom nessa história. Junto com a nova capital, chegaria nessas terras um outro Gangrel chamada Annabelle, a quem sou apresentado e com quem passamos várias noites conversando sobre quem somos e principalmente sobre as implicações da nova cidade que estava nascendo. Dentro de pouco tempo a insatisfação e a irritação com relação a tudo isso cobra o seu preço e Miguel decide que deve retornar para o cerrado virgem onde certamente estará mais em sintonia com a sua natureza.
Passados alguns anos, buscando meios de aperfeiçoar as minhas habilidades medicinais eu acabei fazendo amizade com uma moça, na época, chamada Leia. Curioso como percebemos que sabíamos tantas coisas diferentes sobre as plantas do cerrado. Uma mesma planta, mas com usos totalmente distintos. Eventualmente, talvez por conta do meu carisma ou por conta euforia que Leia sentiu em poder dividir sua forma de ver o mundo com alguém, ela me confessou ser uma bruxa. Me contou com alegria sobre a sua ligação com a natureza e com os animais. Eu aproveitei a deixa para lhe contar que eu também sei um feitiço, sobre como me manter sempre jovem, mas que não poderia jamais revelá-lo sobre pena de perder o seu efeito. Ao longo de todos esses anos ela nunca me questionou, por mais que as vezes seja fácil perceber a curiosidade nos seus olhos.
Nada melhor do que o encontro de dois espíritos livres. Foi assim que a minha amizade com o Oliveira começou. Brasília se mostrou uma cidade fácil de se entediar. Isso se torna um pouco mais difícil quando você está em cima de uma moto rasgando os eixos do planalto de ponta a ponta no silêncio da noite, ouvindo apenas o borbulhar do escapamento que meio grita meio tosse como um velho fumante e alcoólatra. A lataria tremendo com o sobe e desce dos pistões a cada revolução do motor e o som rápido e curto dos postes, placas e outros veículos que ficam para trás. Pilotar é pra mim, uma daquelas coisas na vida que a gente não sabe fazer muito bem, mas se diverte fazendo. Já o Oliveira sabe o bastante para ensinar. Depois de horas pilotando, os braços ficam doloridos de tanto ler o que se escreve em braile ao longo do tempo no asfalto, costumamos ir para um mirante olhar a cidade dormir.
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2020.04.17 06:57 VoxelRiot Eis outro exemplar.

Alguma alma caridosa que faça o favor de ler? Se tiverem interessado em mais, isto é apenas o capitulo 4. Tenho 10, com dois deles incompletos.
Peço desculpa pela formatação de merda, mas a culpa é do reddit. Se tiverem interessados em mais, eu mostro o resto em troco de opiniões.
Longínquo vai o tempo das novidades. Quando Iluz passeava com Jillia pelo braço nas ruas de Arge. Falavam com os comerciantes para ouvir de terras distantes, ou viam com olhos brilhantes os espetáculos dos saltimbancos.
Iluz preocupava-se em ajustar os músculos ao tamanho da roupa e aparar a barba diariamente. Fazia jus ao estereótipo do Biomancer atraente.
Todos os dias chegava a casa perante um sorriso e lanche. Com roupa de pano branca acastanhada ao tom da terra, e suor a escorrer pela careca. Jillia por sua vez, lia sobre herbanária para melhorar Biomancy e fazia chá com o que aprendia.
Ah, ela era e é tão bela. O cheiro a rosas que espalha pela casa. O cabelo apanhado brilha à luz das velas. Figura esculpida nas brasas a dançar no vento. Pele casca de noz temperada pelo libido.
O melhor período da vida, veio depois de receber o bebé embrulhado em azul. A cor extinta que vale fortunas. A velha prometeu e cumpriu com cinquenta mil Celestes ano até aos dezoito. E assim construíram a quinta.
Jillia dançava e cantava com o bebé nos braços ao estender a roupa pelos frescos pastos. Iluz imaginava a mesma melodia para seus futuros filhos. Acordava embalado pelo sonho duma grande família. Mas tudo mudou com o requerimento militar.
Iluz franze os olhos ao pensar no assunto. Voltou coberto pela cicatriz gigante. Ela começa no abdómen e espalha-se pelo corpo como um ramo de oliveira. Os únicos que sabem da sua origem, são os antigos colegas de exércitos, porém também desprezam esses tempos.
Hoje, a deixar de ser quarentão, não liga a mexericos e caprichos na aldeia. Caminha pelas ruas de Arge a tentar passar despercebido no meio da multidão. Preso no silêncio da mente a sofrer de antecipação das burocracias do dia seguinte.
Os dias são todos iguais. Mesma terra castanha com raízes soltas pelas ruas. Mesmas casas de madeira com as mesmas pessoas à porta. Todas vestidas com os mesmos panos brancos com a mesma conversa. O vento que guia as nuvens é o mesmo que passa na careca e avisa do inverno. As únicas experiências novas pela frente são responsabilidades.
E para se livrar delas, Iluz entra na taberna. Cheia de pessoas, mas vazia de companhia. Abriu há minutos e os amigos estão por chegar. Então para fazer tempo, chega ao balcão, cumprimenta o taberneiro e pede um copo de bagaço.
Primeiro copo do dia. Já é tradição bebê-lo sozinho com as costas no balcão e olhos ambulantes. Passam de mesa a mesa, todas elas de madeira antiga cheias de falhas e inscrições feitas com navalhas… Com as mesmas pessoas e o mesmo barulho de fundo… Iluz solta o mesmo suspiro do costume.
Final da tarde e o pôr-do-sol já não ilumina a taberna. O taberneiro movimenta-se entre as mesas a acender as velas presas nos pilares de madeira. Talous, o bardo Cybermancer local, recebe o sinal para começar a cantar.
Iluz revira os olhos. Não é grande fã do bardo. Acha tudo nele ridículo. Tudo. Os collants vermelhos e o fato de seda verde com suspensórios violeta. A boina amarela que parece uma omelete descaída. E pior, os quatro amplificadores espetados na cara. Dois por cima de cada sobrancelha, como se precisasse deles para as prender.
Contudo, apesar da aparência do bardo, a curiosidade vence e ouve-o a cantar. As notícias que repudia são das poucas novidades do dia.
Talous canta um soneto.
‘’Dormia descansada Gertra Torsket
Mas acordou pouco após as sete
Com uma dor pior que uma machete
Iria nascer o novo bebé Torsket
General Bupson estava contente
por finalmente ver a semente.
Nove meses de espera dementes
para do terceiro ser parente.
Mas a intensa dor prevaleceu
E assim a bela Gertra concedeu.
Foi hoje de manhã que faleceu
Meus pêsames ao General Torsket
Muito Obrigado aos aqui presentes
Aceito pagamento em Celestes’’
Talous dá uma pirueta pelo ar, faz uma vénia e extende a boina ao homem mais próximo.
O homem abana a cabeça e mostra-lhe as costa.
Iluz leva a mão ao rosto para lavar o constrangimento. Porque é que ainda gasto tempo com bardos... Quero lá saber do que se passa na outra ponta da ilha... Pensa Iluz ao pousar o copo vazio.
Talous é um Cybermancer, por isso comunica com outros como ele à distância. Como existem vários espalhados pelo mundo com amplificadores, tem uma rede onde a informação circula instantaneamente.
Iluz não compreende a utilidade deles. Afinal, para quê falar com desconhecidos distantes, quando é melhor dar novidades a beber copos. E pior! O despudorado anda com aquelas atrocidades na cara! Iluz nunca deixaria alguém furar-lhe a cara de livre vontade.
O bater da porta na parede chama a atenção de Iluz. Duher e Ubin chegaram, ainda vestidos com o uniforme de guarda. Uma camisola verde, calças de pele e um casaco castanhos com tecido negro de Needlemancy cosido nas mangas.
''São três copos! Do bagaço mais forte que houver!'' - Diz Iluz ao meter dez Celestes no balcão.
’Ele quis dizer seis!’’ - Grita Ubin ao colocar as suas mãos, carnudas como chouriço nos ombros de Iluz. Hoje está alegre como quem descobre cinquenta Celestes no bolso. - ‘’Iluz seu espectro mal amado! Adivinha o que me aconteceu hoje!’’
‘’O quê?’’
‘’Fui promovido a Sargento! Para a semana estou em Serilena!’’ - Ubin sorri. - ‘’Abençoados sejam os bandidos que lhes tem dado problemas!’’
Ubin é Biomancer como Iluz, porém especializado em humanos. É o único dos três amigos na casa dos cinquenta. Mas com a aparência de trinta e cinco e corpulento como um boi. A barba é aparada à definição do queixo e o cabelo negro aprumado como nobreza.
Será um bom sargento. Tem a cara áspera e desgastada com sobrancelhas a engolir os olhos. Quando desconhecidos no exército, Iluz lembra-se de sentir como ser uma criança perto do pai mal humorado. São poucos com quem partilha o riso.
‘’Parabéns seu filho dum espectro!’’ - Iluz coloca os braços à volta de Ubin e puxa-lhe a cabeça para junto da sua.
Duher, contudo, morde o lábio e debruça no balcão. Puxa dum copo e dá um gole comprido. Fica com bagaço no bigode já mais cinzento que preto.
''Nunca vou perceber porque usam os espectros como insulto para tudo.'' – Diz Duher a deambular o copo como um badalo. - ''Se soubessem o que é andar a vida toda à procura dum...''
‘’Sim Duher... Porquê é que os bichos que chupam sangue e trazem azar são usados como insultos.’’ - Ironiza Iluz ao esvaziar o copo. - ‘’Pelo menos vocês Kuniks podem ter rebanhos de filhos!’’
‘’'E os Mancers têm tudo, sem ter que fazer nada!’’ - Diz Duher ao emborcar o resto do copo. Tem olheiras negras atrás duma fina franja esbranquiçada.
‘’Calem-se e bebam! Hoje o dia é para festejar!’’ – Diz Ubin a pegar nos copos no balcão e a colocá-los nas mãos de Iluz e Duher. Iluz nunca percebeu porque os espectros são tabu para Duher. É mais provável um Kunik ir da pobreza à riqueza em Serilena, que ser escolhido por espectros. Aliás, para quê ter coisas conscientes a segui-lo? Para Iluz, o principal benefício deles é a facilidade de reprodução.
Iluz passaria fome por Rahel. Mas inveja os oito filhos de Duher. Imaginava-se a ficar velho na quinta com meia dúzia de pequenos Iluzes e Jillias. Contudo, Mancers têm baixa taxa reprodutiva e nunca conseguiram mais.
Mas está feliz com Jillia. Apesar de só ter uma filha, tem a certeza que vai herdar Biomancy. Se Iluz tivesse casado com uma Kunik, teria mais filhos. No entanto, cada teria as mesmas hipóteses de ser Kunik ou Biomancer.
Pensamentos na quinta fazem Iluz debruçar sobre o balcão. Duher ao reparar em Iluz, coloca de parte a discussão mete-lhe as mãos nas costas. - ''Então o que é que se passa?''
‘’Aquele gaiato estúpido…’’
‘’O que é que ele fez desta vez?’’ - Pergunta Ubin a encostar ao balcão.
‘’Deixou de ser gaiato…’’ - Iluz vinca as unhas na mesa ao cerrar o punho. - ‘’Já fez os dezoito e vou deixar de receber os Celestes…’’
‘’Então já o podes expulsar! Como já queres fazer há anos.’’ - Diz Duher.
‘’De manhã discuti com a Jillia sobre isso. Ela não o quer expulsar. Para ela, é tanto filho como a Rahel.’’ - Iluz emborca o resto do copo. - ‘’Mais três copos!’’
O taberneiro a encher os copos preenche o silêncio dos amigos sem saber o que dizer.
‘’Eu bem tento ignorá-lo. Eu tento esquecer que é um Electromancer…’’ - Iluz agarra no copo que o taberneiro mete no balcão. - ‘’Mas escolher apatia não faz desaparecer a raiva e o ódio.’’. - Iluz dá um gole e aperta o copo metálico. O bagaço derrama sobre a mão.
''Estes três vamos bebê-los duma vez'' - Diz Ubin a elevar o copo. Tenta mudar de assunto. - ''Bem estás a precisar.''
Iluz e Duher levantam os copos e dão o brinde. Depressa vai à boca e num gole desaparece. Os três copo batem no balcão simultaneamente enquanto recuperam o fôlego com caras distorcidas.
Ubin sorri da promoção. Duher sorri por ser o mais franzino. Iluz sorri ao apertar mais o copo. Os cantos frios e afiados do metal amolgado cortam a pele. Prazer como tocar em metal fresco em dia quente.
‘’Odeio aquele gaiato... Que sufoque num espectro!’’ – Diz Iluz ao destruir o copo.
''Mais três copos!'' - Diz Duher ao taberneiro. Franze o olhar e tenta ignorar o comentário dos espectros.
‘’Cada vez que vejo aquela cara. Com aquele sorriso estúpido só me lembro disto.’’ - Iluz aponta as cicatrizes na cara, com o dedo estremecer com a voz. - ‘’Aquela noite.’’
‘’Não penses nisso! Pensa que por causa do exército agora estamos aqui os três juntos.’’ - Diz Ubin a levantar o copo para outro brinde. - ‘’Vá bebe mais outro que já te começas a sentir melhor!’’
Iluz não espera pelo taberneiro e rouba-lhe o copo da mão. Este gesto e o copo estragado, normalmente levaria é expulsão. Porém o taberneiro não quer perder o melhor cliente.
Iluz nem pede desculpas. Ergue o copo e espera que se juntem ao brinde. Em segundos desaparece outra rodada e assim continuam até á hora de jantar.
Iluz sai da latrina e retorna aos amigos. No regresso pisa metade dos pés na taberna e zanga-se com cinco desastrados que foram contra ele. Os seus braços ganharam a flexibilidade da cauda duma vaca e o campo de visão caiu para metade. Mas Iluz consegue achar Ubin e Duher, quase a dormir de cabeça encostada ao balcão.
''Adorvos mastenho dir pacasa...'' - Murmura Iluz e volta para trás sem despedida.
No caminho até á porta da taberna, Iluz pisa os restantes pés e empurra uma cadeira. Espectros! A mobília não tem cuidado ou educação! Não param de ir contra ele.
Sai da taberna ao anoitecer. Mas está preparado para voltar à quinta. Confiante. Começa a caminhada e tudo corre bem. Até que se farta. Por mais que caminhe, nunca mais chega. Ainda está nas portas da aldeia e sente que está a andar há mais de meia hora.
Ele sabe que está a deambular entre casas. Mas não há justificação para demorar tanto. Então tem uma ideia genial!
Iluz vai tentar usar Biomancy para ficar sóbrio e chegar a casa depressa. Um plano infalível. Nem sabe porque nunca pensou nisso antes. No dia seguinte quando contar a Ubin vai parecer um verdadeiro génio.
Contudo, não acontece nada do que espera. O corpo pulsa sem controlo. Os membros começam a ficar musculados, gordos e magrinhos simultaneamente em zonas distintas. A camisola rasgasse no abdómen e solta a barriga gorda que rapidamente se transforma em abdominais e vice-versa.
Mas de certa maneira funciona. Iluz fica um pouco mais sóbrio ao sentir o corpo a pulsar. No entanto, Iluz perde o equilíbrio. Inclina-se contra uma árvore e agarra o tronco para estabilizar a transformação. Porém, as dores de fome fazem-no desistir e ficar encostado à árvore. O corpo pára de transformar e fica desproporcional.
O braço direito tem os músculos inchados num melão e os ombros mais largos que a árvore. A barriga é uma horta de pele flácida e as pernas demasiado magras como o cabo duma enxada. Esqueléticas até. Mas Iluz não pode ficar parado. Continua o caminho a utilizar o braço músculado como apoio. Até o cansaço ganhar e perder o equilíbrio.
A cabeça vai ao chão e solta um grunhido. Morde os dentes com toda a força enquanto expira e inspira de cansaço. Deitado na terra fria de barriga para baixo. Ele quer chegar a casa, mas a força de vontade desaparece. Espectros para isto... pensa Iluz com estômago a dobrar-se. Ele sabe o que aí vem. Tenta resistir. Mas em vão... Iluz vira-se para o lado e vomita.
Usa as migalhas de força para virar para cima e fechar os olhos. Sente o cheiro e a viscosidade do vómito nas costas. Mas o breve alívio seguinte, leva-o num transe para o passado.
Lembra-se de ser acordado de madrugada com o som de trovoada. Lembra-se de ver a tenda a ser arrancada do chão e a voar puxada pelas estacas. Lembra-se do Electromancer com capa negra e inúmeros amplificadores na cara a atacar sozinho o batalhão.
Raios eléctricos como trovões saíam-lhe do corpo. Todos os aparelhos metálicos como espadas, escudos e jaulas com animais voavam à sua volta. Como se fosse o epicentro duma tempestade metálica.
Os militares deixaram de lutar. Estavam a tentar fugir e sobreviver. Cães que Iluz treinou, eram arremeçados dentro das jaulas aos seus colegas.
Lembra-se dos gritos. Lembra-se do ganir. Lembra-se de se esconder no meio dos destroços, agarrado aos joelhos e a tremer com o medo de nunca mais ver Jillia. Quando por acaso, um raio do Electromancer lhe acerta. E tudo se apagou.
Iluz acordou semanas depois, com uma cicatriz enorme a cobrir o corpo e com maior sentimento de insignificância. O homem que quase o matou, nem se apercebeu da sua existência. Foi só mais um dos milhares de raios que soltou naquela noite. Foi só mais um dia para ele. E Iluz foi só mais um.
Após minutos que pareceram horas. Deitado no próprio vómito e a ser assombrado pelo seu passado, Iluz ouve galopar pelo trilho abaixo. Tenta virar-se e ver quem se aproxima. Mas o corpo ainda atrofiado, não obedece e continua deitado.
Até que vê patas de burro a parar ao seu lado. Ouve duas pessoas a descer ao som do ladrar de cachorrinho. Dois estranhos falam entre si. É a voz dum homem e duma adolescente. Iluz tenta ver os salvadores. Mas na escuridão e com visão distorcida, vê apenas duas silhuetas sem caras vestidas de branco. O homem é alto, magro e com cabelo comprido. E a adolescente faz-lhe lembrar Jillia com roupas sujas de preto.
Os estranhos tentam levantar Iluz. Contudo, por mais que tentem, o corpo inanimado acaba no chão. As pernas esqueléticas não tem força ou equilíbrio para aguentar o resto do corpo.
''Moody deita no chão.'' – Diz o homem. Uma voz familiar mas ainda indistinguível.
O burro obedece. Os estranhos agarram nos braços e arrastam-no pelo vómito para cima do burro. A sua cabeça fica encostada à crina, o braço músculado a servir de almofada e o outro balançar no ar. As pernas vão presas na sela. E com o cavalgar, Iluz adormece.
Horas depois, Iluz acorda num monte de palha mal iluminado. Deduz que esteja no estábulo pelo cheiro a cavalo e carvão, embora não saiba como lá chegou. A última coisa que se lembra é de beber com Duher e Ubin. O corpo normalizou, no entanto sente o estômago oco. Como se tivesse usado Biomancy. Mas não deve ser isso, usar Biomancy embriagado soa a ideia terrível.
Ouve os kuniks a cantar em coro no exterior. Estão felizes e animados. Distraídos com futilidades. Um som que por norma ignora, mas neste momento o faz querer a arrancar a barba ao dente. Iluz levanta-se e quase perde o equilíbrio. Não está tão sóbrio como esperava. Os primeiros passos foram difíceis, mas depois ganha o ritmo.
''Boa noite patrão.'' – Diz Tortgard de vassoura na mão. - ''A Rahel deixou uma merenda preparada. Está alí na mesa de poker.''
Iluz só quer comer e dormir. Mas a dor de cabeça... O barulho… O coro dos Kuniks como bois exaltados. O raspar da vassoura na madeira. O respirar dos cavalos. O vento.
Iluz fixa Tortgard com olhar vermelho envolto de olheiras. Incêndio envolto de pólvora.
‘’Vory, faz pouco barulho.’’ - Sussurra Tortgard. - ‘’O patrão não tá com boa cara.’’
‘’Preocupa-te tu com ele.’’ - Sussurra Vory. - ‘’Trabalho bem no silêncio.’’
Sussurros como riscos nos ouvidos. Iluz chega perto da merenda e dá um murro na mesa. Dói ao ouvido como martelar pregos em ferro.
Vory engole em seco. - ‘’O outro lado do estábulo também precisa ser limpo.’’
‘’Sim, é melhor ir para lá.’’ - Diz Tortgard.
Iluz puxa do banco e senta-se à mesa. Passa o braço e atira todo a palha, os feijões e cartas para o chão. E finalmente morde a merenda.
Foi feita por Rahel às escondidas de Jillia certamente. O pão e a alface estão secos, o queijo com bolor e a carne tem pontos esverdeados. É feita de sobras. Mas sabe tão bem na mesma. Entre as dentadas, ele sorri ao encher-se com um calor de prazer.
Mas o êxtase acaba. Iluz coloca os punhos na mesa e levanta-se. Os pés arrastam-se pela palha. As tonturas fazem o mundo divagar a cada passo. Sai do estábulo e sente o sopro de lucidez. O ar exterior é leve e liberto. Porém, o cantar fica mais alto.
Inspira a tapar a explosão. Mas solta um suspiro de alívio ao ver Rahel a aproximar-se.
Iluz força o sorriso. Mas em vão. Os olhos estão pesados e a mente nublada. Em vez de sorrir, Iluz mostra os dentes com olhos desnivelados.
''Pai! Pai! Advinha o que encontrei!'' - Diz Rahel.
''O quê?'' – Murmura Iluz.
''Um Cachorrinho. Podemos ficar com ele?!'' - Diz Rahel ao fazer o seu melhor beicinho.
Porém Iluz olha para o chão. Olha para Rahel. Olha para trás. Mas não encontra nada.
Só vê Tortgard pelo canto do olho. Ele olha Rahel e abana cabeça de lado a lado. Tem olhos arregalados e um dedo à frente á boca.
Os lábios movem-se em silêncio a soletrar ‘’a-ma-nhã, a-ma-nhã’’ .
''Está ali pai, ele voa.'' - Diz Rahel a apontar para cima. - ''Chama-se Ciza.''
Iluz franze o olhar. Aquilo não é um cachorro. É um espectro.
''Sua tonta. Tu não podes ter espectros. Não és Kunik'' – Diz Iluz a forçar o riso tremido. - ''Vai devolvê-lo a quem o tiraste.''
''Ele é que veio ter comigo e estivemos juntos o dia todo. Ele não tem outro dono'' – Diz Rahel.
Um arrepio atrofia Iluz como um rastilho. Não... Não... O espectro não é dela... A Jillia não me fazia isso... pensa Iluz ao deixar Rahel para trás. Eu já cá estava quando a Rahel nasceu. Mesmo se tivesse andado num reboliço ou outro no meio da palha com alguém, ela pararia quando regressasse... Certo?
Iluz olha para trás e repara nas expressões de Rahel e Ciza.
Rahel estende a mão... E Ciza vem até si sem palavras trocadas.
Rahel faz o beicinho... Ciza faz o beicinho.
''Vá lá pai! Eu tomo conta dele''
Iluz cerra os dentes e esconde as lágrimas. O seu rosto fica vermelho. Os músculos começam a pulsar. A crescer. A rasgar o resto da roupa de pano. Cada pegada maior que a anterior. A fúria alimenta a fome. Marcha em direção á casa e solta um grito que vibra a noite.
''JILLIA!''
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2020.02.15 02:28 carretinha O padre e A Baronesa

Em uma aldeia havia um padre conhecido pela sua piedade com os monstros. Possuídos de todos os lugares viajavam até a pequena aldeia para serem curados de seus demônios. O padre atendia em uma pequena igreja, sem bancos, feita de madeira, pintada de branco, que era quente demais no verão e fria demais no inverno. A simplicidade das instalações não incomodava aquele sujeito humilde, porém a Baronesa se contorcia de ver um servo de Deus trabalhar num lugar tão mal cuidado. Claro, isso não seria um problema se Ela não tivesse que ‘visitá-lo’ toda dia de missa.
A Baronesa, dona daquelas terras e outras na região, tentava emplacar seus novos produtos no mercado. Máquinas como o mundo nunca tinha visto, criaturas metálicas espertas, programadas para todo tipo de tarefas: limpeza, construção, cuidado com as crianças, vigilância dos escravos, mordomos e tudo mais que o cliente pudesse imaginar. Mas o povo, pobre de conhecimento e ainda mais pobre de dinheiro, olhava para as máquinas com desconfiança, viam em seus olhos amarelos e iluminados motivações ocultas e sombrias. A Baronesa, sabia o que o povo pensava de suas construções e se surpreenderia se fosse diferente.
“Esses ignorantes e imbecis, não compreendem os avanços da tecnologia! Mas de que adianta? Ainda que entendessem, nada poderiam fazer! Essa gentalha não consegue manter uma moeda no bolso. Oh, imagine! Nem que juntassem todos os pobretões de todas as aldeias da região, não conseguiram comprar um peça das minhas maravilhosas máquinas.”
O que a surpreendia era a reação dos seus pares, os sofisticados baroneses, duques e nobres, que rejeitavam com igual força suas ideias sobre a modernidade.
“Minha querida Baronesa, a senhora possui tantas terras boas, devia focar em cultivá-las ao invés de construir essas criaturas de metal.”
Para impressionar a nobreza, encontrar possíveis compradores ou pelo menos alguém que a apoiasse, a Baronesa gastava partes enormes da sua interminável fortuna com festas e mais festas. Onde as máquinas serviam, cozinhavam, faziam segurança e entretinham os convidados, sem parar, sem reclamar e sem se cansar.
No entanto os barões, duques e nobres não pareciam impressionados e tratavam com profunda indiferença as maravilhas da tecnologia. Num mundo iluminado por velas, onde moinhos de água tinham acabado de ser inventados, tais criaturas metálicas pareciam apenas uma alegoria festiva, um enfeite, algo que está ali por estar e ao mesmo tempo não existe, uma mistura estranha entre personagens bizarros de circo e mendigos de rua.
Foi durante uma missa, num dia extraordinariamente quente, agravado pelas instalações da igreja; no meio da aglomeração do povo, que se agregava mais próximo do altar para acompanhar mais um exorcismo e cura de um monstro; onde a nossa querida Baronesa se sentia absolutamente desconfortável; que Ela teve a ideia de que
“Se meus pares fecham os olhos para as modernidades, a igreja há de abri-los.”
Foi assim que irrompeu um grito pedindo atenção. O povo, até então atento a cura, voltou-se para Ela. Até o monstro sobre o altar se virou. O único que não se mexeu foi o padre, pois aquele era o momento mais crucial do exorcismo, se ele saísse do transe a alma daquela pessoa poderia se perder para sempre.
“Senhoras e senhores, desculpe-me interromper o espetáculo que é a cura divina! Todavia preciso anunciar para todos vocês, que depois de tantos anos que passamos neste lugar caindo aos pedaços, finalmente teremos uma nova igreja! A doação, claro, será feita do meu próprio bolso e construída com minhas próprias máquinas, de modo que todos só tem a ganhar.”
O povo que desconfiava no começo da fala, sorriu ao ouvir ‘do meu próprio bolso’. Mas logo fechou a cara novamente, ao ouvir ‘com minhas próprias máquinas’. Afinal, se não fossem por essas malditas criaturas de metal, os pedreiros teriam algum trabalho e receberiam o suficiente pra gastar no bar, no verdureiro e na peixaria; que faria com que a dona do bar, a moça das verduras e os pescadores tivessem mais dinheiro pra gastar no padeiro, no alfaiate e no ferreiro; e assim, sucessivamente. De modo que o pouco dinheiro pago aos pedreiros passasse pela mão de todos na aldeia, em seguida na mão de todos das aldeias vizinhas, até enfim ser pego por cobradores de impostos e finalmente se perder dentro do cofre de algum nobre.
Apesar da decepção, o ânimo geral foi positivo. Afinal uma igreja nova ainda era melhor que nada. E embora duvidassem das intenções da Baronesa e de suas criações, jamais duvidariam de sua Fé, que alegavam ser a maior entre todo povo comum. Boatos passados de boca em boca diziam até que Ela era capaz de realizar milagres, mas claro que não passavam de boatos.
Entretanto por mais fervorosa que fosse a Baronesa, a ponto de sair da sua confortável mansão no topo do Monte; descer a pé todo o morro; atravessar o rio; subir a colina onde estava a igreja; e fazer o caminho de volta todas as vezes que ia à missa, Ela ainda questionava certas ações do padre. A Baronesa, assim como todos ‘cidadãos de bem’, defendia que os monstros não deveriam ser curados, muito pelo contrário, deveriam ser caçados e mortos pelos crimes que cometeram contra Deus, pois ‘os crimes contra Deus’ eram a única explicação para tem se transformado. Isso se não tiverem matado gado, ou estripado alguém depois que assumiram a sua forma monstruosa.
Após o anúncio ninguém mais assistia o exorcismo e para o padre isso não fazia diferença, na verdade era até melhor. Não gostava de fazer os exorcismos em cima do altar ou em público, se o fazia daquela forma era por dois motivos: O primeiro, era literalmente por pressão popular, porque uma vez o povo quase quebrou a porta dos fundos da igreja enquanto tentavam espiar um ritual. E o segundo, porque aquela era uma boa forma de divulgar seu trabalho e atrair aqueles que precisam de cura. Portanto apenas um exorcismo era feito em público e só no final da missa, se ainda houvesse outros possuídos a serem curados eles seriam atendidos na parte de trás da igreja, quase em segredo.
Só depois que o demônio foi expurgado e finalmente o monstro pode olhar no espelho e ver a pessoa que era, que o padre abandonou o transe e a concentração no trabalho. E não demorou muito a saber da novidade através dos cochichos e conversas que corriam por toda assembléia:
“Onde ficará a nova igreja?”
“Será que vão derrubar essa daqui?”
“Tomara que tenha uma torre do sino!”
“Espero que não seja em cima do morro.”
“Ia ser lindo se fosse em cima do rio!”
Assim que pescou informação o suficiente sobre a construção da nova igreja, foi imediatamente contra. Jamais um único fiel deveria ser responsável pelo dinheiro e construção do templo, porque
“Um templo, assim como a Fé, deve ser uma construção conjunta. Feita pela dedicação e amor das pessoas e não por ganhos materiais ou glória pessoal. O marceneiro deveria trabalhar a madeira que o lenhador cortou e doou, para que os ajudantes usem os pregos que sobraram da construção de suas casas, para pregar juntas as tábuas. Todos trabalhando juntos, sem ninguém cobrar a ninguém, cada um fazendo e doando de acordo com o que pode e tem!”
“É assim que deveria ser construído um templo! E foi assim que foi feita essa capela.”
Esperou a multidão se dispersar e foi conversar com a Baronesa, que por sua vez estava ansiosa para contar os detalhes da obra.
“Eu agradeço sua oferta minha querida, mas um templo assim como a Fé deve ser uma constr...”
“Desculpe senhor padre, porém acredito que alguém mais competente deveria tomar a decisão. Passados mais alguns anos ou uma praga de cupins e esse lugar vem abaixo! Além disso o povo clama por um lugar mais confortável! Já lhe aviso: se o senhor insistir em recusar minha proposta, enviarei a oferta ao bispo.”
“QUE ENVIE ENTÃO! Mas saiba que nunca estarei de acordo com um templo feito tão mundanamente!”
Foi uma discussão acalorada, contudo não foi nem a primeira, nem a mais tensa delas. O padre e a Baronesa tiveram várias discussões em torno da Fé, da organização da aldeia, das leis e de outros vários assuntos. Mantinham ao mesmo tempo um profundo respeito e um certo desafeto um pelo outro, mas nunca rancor.
O padre achava que as ideias da Baronesa eram afastadas demais da comunidade e pouco preocupadas com a benevolência, apesar de estarem de acordo com as palavras de Deus. Para a Baronesa, as ideias do padre eram sempre ideológicas demais e pouco práticas, apesar de estarem de acordo com as palavras de Deus. E como era a concordância com as palavras de Deus que decidia quais eram as melhores ideias, eles não tinham critério de desempate. Costumeiramente, o padre ganhava as discussões, por ter uma posição mais próxima de Deus, mas as coisas costumavam ser feitas ao modo da Baronesa, por ter uma posição mais próxima do Governador.
No fim, o projeto foi enviado ao bispo que o aceitou imediatamente, formando uma comissão de bispos para abençoar o local da nova igreja e os objetos santos.
A planta da igreja, também incluía uma área no subsolo que seria a nova casa do padre. Ele, até então, morava num pequeno quartinho de teto baixo, na parte de trás da capela, dormia num colchão fino colocado sobre o chão, que fora presente do pescador. O cômodo também possuía ainda um fogão a lenha, montado pelo ferreiro. O banco e a mesinha onde o padre realizava seus estudos, ambos bambos, eram peças defeituosas doadas pelo marceneiro e um pouco mais afastado havia uma fossa com cabine, feitas pelo próprio padre, onde ele fazia suas necessidades.
A Baronesa foi rápida para mostrar serviço, e assim que abençoaram o local as máquinas deram início a construção. Os bispos ficaram encantados com a forma que aquelas criaturinhas de metal trabalhavam, tão encantados que se sentaram num ‘acampamento de obras’, montado pela Baronesa, para assistir a construção. Quando anoiteceu, a casa do padre já tinha o piso e todas as paredes. Logo antes de se retirarem para dormir os bispos perguntaram a Baronesa:
“Suas construções não vão descansar?”
“Ah, senhor bispo, não se preocupe, elas não precisam disso, podem trabalhar por dias seguidos. Inclusive, garanto aos senhores que a igreja estará de pé e decorada antes do dia de missa.”
Os bispos se surpreenderam com a promessa. Uma igreja como aquela demoraria ao menos três meses para ser construída por mãos humanas, se essas fossem mãos de pedreiros experientes talvez dois e meio. Porque a Baronesa falou muito bem delas, os bispos esperavam que as máquinas fizessem em um mês, tanto que a maioria deles tinha planejado ir embora no dia seguinte, menos o bispo responsável pela região que faria a primeira missa e o batismo da igreja. Contudo já que a Baronesa prometeu uma entrega tão rápida, todos resolveram esperar para realizar uma grande missa de batismo.
***
As máquinas trabalharam durante toda a noite. Elas têm a forma que melhor condiz com o seu trabalho. Sim, porque diferente das obras feitas por pedreiros, onde cada um faz um pouco de tudo, as máquinas possuem uma função específica, então necessitam de um corpo específico. Enquanto uma passa o cimento, a outra coloca os tijolos; uma ajuda a secar o cimento e, ao mesmo tempo, outra passa a massa onde o cimento já secou; uma é responsável por ajudar a secar a massa e a outra por pintar onde a massa já secou; algumas ajudam a levantar aquelas que trabalham em andares mais altos; sem falar na batedora de pregos, nas carregadoras, nas colocadoras de móveis e decoração, etc. Tudo isso é perfeitamente sincronizado, para que não se pinte onde a massa está molhada; não se pise onde o piso ainda não assentou; ou para não secar o cimento antes de colocar os tijolos.
Todavia diferente de um relógio, que para funcionar depende de todas suas engrenagens perfeitamente encaixadas, nos lugares e tempos específicos, tais criaturas trabalham de modo tão sincronizado porque se comunicam. Sim, e se comunicam de uma forma parecida, mas ao mesmo tempo muito diferente daquela dos humanos. Sua precisa e avançada ‘fala’ é composta por vários sons de *beep*, e cada máquina tem um *beep* de tom e altura diferentes. Durante a execução de uma tarefa elas ‘falam’ de forma incessante, para alertar umas às outras de suas ações, logo todas precisam conhecer a ‘voz’ uma das outras, a fim de ter uma noção sobre ‘o que ocorre onde’ na execução da tarefa.
Contudo não só na linguagem elas lembram os humanos, elas pensam, tem sentimentos, personalidades, gostam de certas máquinas e desgostam de outras. Apesar de serem fisicamente iguais e pintadas do mesmo jeito, o colocador de tijolos 36579 é alegre e festivo, enquanto o 85479 é introspectivo e silencioso, isso fica evidente em seus movimentos e também no tom e frequência de seus *beeps*. Um humano até poderia perceber isso, se pudesse observá-los atentamente durante dias, no entanto para as máquinas a diferença de personalidade entre eles é gritante. Claro, a personalidade deles pode até fazer com que ajam de forma diferente, mas de modo algum isso afeta seu trabalho, pois apesar de mover o braço um pouco mais e se agitar de vez em quando, o 36579 precisou colocar os tijolos da mesma forma e ao mesmo tempo que o 85479, para que as paredes ficassem prontas juntas.
Um humano provavelmente se sentiria desconfortável de ter que trabalhar de forma tão mecânica, sem poder imprimir sua personalidade, sua ‘marca’ no trabalho. Só que essa é a beleza para as máquinas, elas adoram ser todas diferentes e ainda assim trabalhar de jeito igual. O sincronismo as deixam felizes. Trabalhar para elas não é muito diferente de uma dança, uma dança num mundo onde todos são exímios dançarinos.
E naquele dia participaram de seu grande baile, que se estendeu por toda noite, quando tiveram de cochichar, mantendo seus *beeps* baixinhos para não acordar as pessoas humanas. Com a chegada da manhã seguinte, dançaram novamente sob o dia, cantando *beeps* mais altos, porque os humanos faziam muito barulho. E dançaram, trabalham, cantaram e cochicharam durante os dias que vieram, até que…
***
Na manhã do ‘dia “antes do dia de missa”’ a igreja estava pronta. Era grande, definitivamente maior que a velha capela. Ainda não chegava aos pés de uma catedral, porém tinha os tijolos mais bem colocados, as paredes mais bem niveladas, os únicos bancos posicionados com precisão milimétrica e um altar perfeitamente arrumado, com os todos utensílios alinhados, prontos para o início da missa.
As máquinas, orgulhosas do seu trabalho, se retiraram e aguardaram, ao lado da igreja, o despertar da Baronesa. Dispuseram-se em fileiras organizadas por função e aproveitaram o tempo de espera para conversar. Demoraram apenas 12 segundos para discutir profundamente sobre os mais variados assuntos, a comunicação delas era realmente muito eficaz. Nesse pequeno intervalo de tempo conversaram sobre: como os humanos eram estranhos, como gostaram de finalmente fazer um trabalho fora da mansão, teorizaram sobre os pássaros que cantavam na manhã, flertaram, fizeram novas amizades, planos para os próximos trabalhos, etc. Depois ficaram paradas. As mais afobadas tremiam de levinho, ansiosas para que sua Mestra dessem-lhes mais ordens, afinal gostavam muito de trabalhar.
A aldeia inteira, e boa parte das vizinhas, estava presente para a missa, que foi coordenada sobretudo pelo bispo regional, contando com as participações pontuais e diversas bênçãos dos bispos das outras regiões. Finalmente, depois de anos à frente do altar, o padre podia assistir uma missa como simples fiel e isso trazia-o boas lembranças.
Ao final da missa, e antes de conhecer sua nova casa, o padre perguntou a Baronesa se Ela havia construído um lugar para realizar a cura dos possuídos. Ela disse que não, que havia esquecido, mas os dois sabiam que o ‘esquecimento’ era proposital. Era mais provável que ela tivesse construído um abatedouro do que um lugar de cura.
“Se não construiu não há problema, eu os receberei na minha casa então.”
Em sinal de respeito, a Baronesa presenteou o padre com uma máquina ajudante, que ele só aceitou depois de muita relutância.
“Senhor padre, faça o favor de aceitá-lo, o senhor bem sabe é um tremendo desrespeito cometer a desfeita de rejeitar um presente.”
O ajudante foi instruído por sua Mestra a apresentar a casa ao padre, que levou alguns amigos e o bispo da região consigo. Desceram a escada atrás do altar, que levava à casa. Tudo tinha sido construído e organizado nos padrões mais modernos, o padre, que era um sujeito simples, não gostou da casa de primeira, desconfiava do estranho vaso de porcelana com água dentro, que ficava onde o ajudante disse ser o banheiro. Julgava que aquilo tinha intenções malignas.
Na verdade várias coisas na casa pareciam ‘erradas’, as velas nos candelabros nunca apagavam, a casa estava fresca demais para uma casa no subsolo e havia sempre uma brisa vinda de algum lugar. No final da visita, encontraram várias escotilhas bem discretas, por onde entravam ar e luz. A Baronesa podia não gostar do padre, mas queria que a casa fosse o mais funcional possível. Porém foi só depois de abençoar a casa mais de 15 vezes e finalmente descobrir como funcionava o vaso de porcelana que o padre se livrou de um certo ‘sentimento ruim’.
O ajudante era muito útil. Ele ajudava a preparar a missa, limpava a casa e a igreja, preparava comida e fazia companhia pro padre nas madrugadas. E apesar de achar estranho no começo, o padre foi, aos poucos, se acostumando com a natureza daquele ser flutuante com uma grande lâmpada amarela no meio do rosto. A máquina se auto denominava ‘Ajudante 2047’, tinha uma personalidade extrovertida e adorava falar. Isso incomodava a Baronesa que estava prestes a tirar-lhe o modulador de voz, quando teve a ideia de dá-lo ao padre. Nada poderia tê-lo deixado mais feliz! O padre era quieto e gostava de ouvir as pessoas, então tratava o ajudante com paciência, até quando ele falava demais, o que na opinião do padre não acontecia com tanta frequência, afinal a comunicação dele era estranhamente… eficaz. A maior parte das conversas eram sobre as pessoas. Apesar de nunca falar diretamente com elas, o Ajudante 2047 adorava ver seu comportamento estranho e ficava sempre ansioso para interagir, contudo toda vez que se aproximava de alguém a pessoa se afastava, às vezes com um olhar de repúdio, às vezes com um olhar de medo, mas na maior parte das vezes com uma mistura dos dois. No dia seguinte, o padre teria que encontrar e explicar para a pessoa que o ajudante não faria-lhe nenhum mal. Todavia mesmo com tantas explicações as pessoas ainda evitavam-no, então contentava-se em observá-las.
Agora que não precisava fazer todo trabalho da casa e igreja sozinho, o padre era mais visto do lado de fora, onde ajudava qualquer um que precisasse e não cobrava nada em troca, pedia apenas que comparecessem à missa. Vivendo assim, o padre e o Ajudante ajudaram-se mutuamente e logo isso virou a vida ‘normal’.
Com a reforma a igreja ficou mais famosa e a fila de possuídos cresceu, indo muitas vezes da sala da casa do padre até a entrada da igreja. Ao atender um enfermo, primeiro ele tinha de escutar suas confissões, em seguida concedia-lhes perdão e só depois fazia a oração de expurgo, para livrar-lhes. Alguns viam os sintomas da possessão desaparecem imediatamente, deixando cair qualquer escama, pêlo ou pedaço de pedra que, porventura, vieram a crescer; outros só melhoravam com o passar dos dias, mas seus sintomas iam embora sem deixar qualquer evidência. Os primeiros a serem atendidos eram aqueles que estavam em situação mais grave, ou seja, aqueles prestes a completar a transformação e perder o controle. Destes, alguns eram atendidos antes do final da missa, outros no lugar que estavam assim que fila se formava. Licantropia, glutanismo, petrificação, harpeismo e duplicismo eram os casos mais comuns, mas havia uma infinidade de outras possessões.
Um dia houve uma discussão sobre quem construiria a nova ponte sobre o rio, a Baronesa logo ofereceu suas máquinas, em troca, claro, de uma pequena contribuição da população. Já o povo queria que o marceneiro e o pedreiro fizessem a ponte. O padre, como sempre, tomou o lado do povo, pois sabia que se deixasse a construção nas mãos da Baronesa e suas máquinas o dinheiro jamais sairia dos cofres dela. Quando mandaram o impasse para o Governador, todos temiam que a Baronesa fosse ganhar, então o padre arquitetou um plano: avisou todos na aldeia, de modo que a Baronesa não ficasse sabendo, que seria feita uma missa importante no ‘dia depois do próximo dia de missa’. Durante essa missa ‘escondida’ eles arrecadariam os fundos para a ponte, que deveria ser construída antes que chegasse a ordem do governador. Assim, quando a Baronesa descesse de sua mansão no ‘dia de missa’ a ponte estaria pronta e o dinheiro continuaria entre o povo.
“Sei, senhor bispo, que este não é o plano mais honesto, mas o povo não aguenta mais entregar suas moedas à quem nunca às retorna.”
Confessou o padre, em lágrimas. O bispo apiedou-se do homem e respondeu-lhe que aquela devia ser a vontade de Deus, portanto não haveria castigo.
A Baronesa trabalhava em suas máquinas na varanda da mansão quando viu uma aglomeração na frente da igreja. Era normal que houvesse ‘missas depois do dia de missa’, Ela própria ia às vezes, o estranho era estar tão cheia. Pensou um tempo sobre o assunto, perguntou-se se havia esquecido alguma data especial, até que se lembrou da discussão e conjecturou que aquilo só poderia ser um plano do padre. Com pressa, desceu pela primeira vez o morro com suas roupas de trabalho, tomaria-a muito tempo colocar as roupas chiques, que costumava usar quando descia ao povoado. Andava rápido, porém o caminho era longo e ela só chegaria ao final da missa, mas talvez, a tempo de frustrar os planos do padre.
O padre que havia organizado a missa do lado de fora, exatamente para que pudesse ver o abrir e fechar do portão da mansão, acelerou a missa e conseguiu recolher o dinheiro antes que ela atravessasse o rio. Aflito, disse que não haveriam exorcismos públicos e que aqueles que necessitassem de ajuda deveriam procurá-lo em sua residência.
Neste dia havia um homem, que estava acompanhado de uma enorme criatura envolta num manto negro. O povo sabia que aquilo só podia ser um monstro em estágio final de transformação. A criatura era a esposa do homem e tinha sido possuída por um demônio glutão. Ao ouvir que deveria esperar ainda mais para ser curada, ela perdeu o controle, deixando-se levar pelos pensamentos sombrios que a atormentavam. Ficou furiosa, arrancou a capa que cobria o corpo e o rosto, e respondendo respondendo aos protestos do marido, que implorava para ela colocar o pano de volta , vociferou:
“Estou cansada! Estou com fome!”
O monstro era terrível, gordo, sem pelos ou cabelo, tinha horríveis bolas de pus amarelado, que se espalhavam como furúnculos por todo o corpo. Seu rosto era completamente deformado, a ausência de lábios fazia com que seus dentes e gengiva ficassem totalmente expostos. Porém a pior parte era a carne e pele que faltavam na lateral direita do torço, fazendo com que as costelas ficassem de fora e que fosse possível ver alguns dos órgão internos da criatura, mas o pedaço não parecia ter sido arrancado, não, pelo contrário, estava em formação. A carne borbulhava e parecia crescer muito lentamente, desejando cobrir as vísceras e formar o braço que faltava.
A criatura começou a andar em direção ao altar. As pessoas assistiam a cena paralisadas, em choque, horrorizadas. Ao dar o segundo passo, ela esbarrou no homem do casal à frente. O resultado fez com que o pânico tomasse conta do público, que finalmente disparou a correr em todas as direções. Primeiro, o homem ficou preso, depois seu corpo foi sendo pouco a pouco absorvido pela carne do monstro, e na medida que ia sendo ‘incorporado’ o lado direito do monstro enchia-se de carne, pele e bolhas de pus. A esposa do homem até fez um esforço para salvá-lo, mas ao ver a carne sendo derretida e sugada, vomitou e caiu para trás, para, em seguida, sair se arrastando de costas pro chão, incapaz de desgrudar o olhar do horror que acontecia em sua frente. Por sorte, o monstro a ignorou, seu olhar, faminto e furioso, dirigia-se para o padre, que preparava uma oração desde que este havia tirado o manto. Precisava do exorcismo pronto quando tocasse no monstro, do contrário seria absorvido.
Nesse momento a Baronesa já estava chegando e pode ver tudo com seus próprios olhos, furiosa, ela cerrou os punhos e começou a rezar. A criatura encarou o padre até que o corpo do homem fosse totalmente absorvido, aquela ‘refeição’ tinha sido o suficiente para formar um braço grotesco, mas não para preenchê-lo de carne, sobrara então por todo lado direito do monstro buracos, por onde se via os ossos e partes internas. Isso deu ao padre tempo para terminar o exorcismo. Semi-acabada, a criatura avançou correndo aos tropeções, como as criaturas infernais normalmente fazem, o padre só precisava tocar na criatura e fazer a segunda oração para a salvação das duas almas. O homem absorvido já estava morto, porém sua alma precisaria ser libertada e a possuída, exorcizada. Fazer isso em tão pouco tempo não seria tarefa fácil, mas tinha de tentar.
O monstro já estava perto. O padre sentia o cheiro podre, ouvia as passadas pesadas, os grunhidos inumanos, mas manteve os olhos fechados e o coração sem medo. Calculou a posição do monstro e no momento certo esticou o braço. Ouviu um grito, mas não sentiu o toque. Abriu os olhos. Sua mão estava a centímetros da criatura.
Algo estranho havia acontecido. A Baronesa tocava o monstro pelo lado, que congelado como uma estátua, tinha uma expressão de terror e tristeza nos olhos, um terror que só um possuído poderia sentir. O terror de ter seu corpo mudando a composição de carne, ossos e órgãos para cinzas, o que causava uma dor alucinante, o terror de ter sua alma sendo desmembrada, estraçalhada e destruída, o terror de saber que não vai nem para o céu ou para o inferno e sim para o vazio da inexistência, o terror de sentir tudo isso e não poder gritar.
Do lugar onde a Baronesa tocou, espalhou-se uma cor cinza por todo corpo do monstro, com uma textura que não lembrava pedra, mas, sim, pó acumulado. O padre teve tempo de ver o efeito tomando o corpo da criatura, que apesar dos pecados e da morte, possuía ainda um resquício de humanidade e tinha salvação. Também teve tempo de reparar em uma lágrima, que escorria do olho ainda não transformado em cinza da possuída. Quando foi finalmente inteira afetada pelo toque, ela se desfez e suas cinzas levadas pelo vento. A alma das duas pessoas, assim como a do demônio haviam sido completamente destruídas. O padre sabia que aquilo não era um exorcismo, era uma outra coisa, mais antiga, mais cruel, mais perigosa…
“Ela... ela lançou um sortilégio?”
Foi o que pensou, enquanto encarava a Baronesa, que estava pingando suor, cansada, ofegante, suja de terra e graxa. Ela olhou em seus olhos, mas não disse nada, apenas se virou voltando para a mansão.
Durante a noite, máquinas de limpeza desceram, para limpar o que sobrou das cinzas.
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2019.12.28 03:48 altovaliriano Vento Cinzento está vivo

Link: https://www.reddit.com/asoiaf/comments/4dhyal/spoilers_extended_mother_he_said_grey_wind/
Autor: alaric1224
Título Original: "Mother," he said, "Grey Wind . . ."

Muitos acreditam que o lobo gigante de Robb, Vento Cinzento, morreu com Robb no casamento vermelho. No entanto, afirmo que essa é apenas uma das interpretações possíveis e que o GRRM, na verdade, deixou várias pistas de que Vento Cinzento ainda vive.
Primeiro, precisamos analisar por que achamos que Vento Cinzento está morto. Existem quatro fontes principais.
  1. Bran acha que Vento Cinzento pode estar morto.
  2. Jon acha que Vento Cinzento está morto.
  3. Salladhor Saan nos conta o que os plebeus estão dizendo sobre a cabeça de Vento Cinzento ter sido costurada ao corpo de Robb.
  4. Merrett Frey responde perguntas sobre a cabeça ter sido costurada ao corpo de Robb.
Bran e Jon pensam que Vento Cinzento está morto, mas isso se dá em grande parte porque outras pessoas disseram a eles e de suas próprias interpretações do que seus lobos gigantes vêem. Notadamente, nem Fantasma nem Verão pensam que Vento Cinzento esteja morto. Isso é especialmente significativo porque sabemos que eles podem sentir seus próprios irmãos e irmãs. De fato, da perspectiva de Fantasma e Verão, parece que eles não sentiram a morte de Vento Cinzento do mesmo modo que sentiram a morte de Lady. São apenas os humanos que combinam os rumores que ouviram e as percepções dos lobos gigantes para chegar a uma conclusão.
É aqui que é importante ressaltar que algo não se torna verdade apenas porque um personagem POV pensa que é.
Sim, Bran pensa:
O sonho que tivera... o sonho que Verão tivera... Não, não devo pensar no sonho. Nem sequer o tinha contado aos Reed, embora pelo menos Meera parecesse sentir que havia algo errado. Se nunca falasse dele, talvez pudesse esquecer que o sonhara, e então não teria acontecido, e Robb e Vento Cinzento ainda estariam...
(ASOS, Bran IV)
Notadamente, esses são os pensamentos de Bran depois de se lembrar de um sonho que Verão teve. Um sonho que é visivelmente omitido da história (e do leitor).
E Jon pensa:
Fantasma sabe que Vento Cinzento morreu. Robb tinha morrido nas Gêmeas, traído por homens que acreditava serem seus amigos, e seu lobo havia perecido com ele.
(ADWD, Jon I)
Mas isso deixa de fora o que ele realmente percebeu quando era Fantasma, que é abordado neste excelente post por lady_gwynhyfvar do famoso da Radio Westeros.
De um post em seu blog:
Quando Jon pensa que "Fantasma sabe que Vento Cinzento morreu", mais adiante neste capítulo, ele está aceitando a direção errada dos pensamentos do lobo branco sobre seus companheiros de matilha no sonho de lobo, pois isso confirma o que ele acha que sabe em seus momentos de vigília. Temos indícios o suficientes de outros pontos de vista para acreditar no contrário. Considere esse pensamento de Bran em Verão:
Eram seus agora. Eram sua matilha. Não, o garoto sussurrou, nós temos outra matilha. Lady está morta e talvez Vento Cinzento também, mas Cão Felpudo, Nymeria e Fantasma ainda estão em algum lugar. Lembra do Fantasma? (ADWD, Bran I)
E há isso em ADwD, Jon I:
Antes eles eram seis, cinco choramingando cegos na neve, ao lado do cadáver da mãe, sugando o leite gelado de seus duros mamilos mortos, enquanto ele se arrastava sozinho. Restavam quatro... e um deles o lobo branco não conseguia mais sentir.
“Restavam quatro... e um deles o lobo branco não conseguia mais sentir” é ambíguo. Isso poderia significar "restavam quatro, e ele não podia mais sentir um desses quatro", mas também poderia significar "restavam quatro, e outro que ele não podia mais sentir". Acho que a segunda interpretação é a correta, caso contrário, teríamos que identificar qual dos quatro ele não conseguia sentir. Ele está claramente consciente de si mesmo, Nymeria e Cão Felpudo neste capítulo. Então, isso deve significar que ele não pode sentir Verão, certo?
Nas noites sem estrelas, o grande penhasco ficava negro como uma rocha, a escuridão elevando-se sobre o mundo inteiro, mas, quando a lua saía, ele brilhava pálido e frio como um córrego congelado. A pele do lobo era grossa e peluda, mas quando o vento soprava sob o gelo, nenhum pelo conseguia afastar a sensação de frio. Do outro lado, o vento estava ainda mais frio, o lobo sentia. Era onde seu irmão estava, o irmão cinzento que cheirava a verão.
(ADWD, Jon I)
Então, ele sente Cão Felpudo, Nymeria, Verão e ele mesmo... "Restavam quatro... e um deles o lobo branco não conseguia mais sentir". Em outras palavras, ele sabe que Lady está morta, mas ele simplesmente não consegue sentir Vento Cinzento.
Finalmente, é importante observar que, apenas porque um personagem POV pensa algo, não o torna verdadeiro. Por exemplo, Cersei pensa esse pensamento, que sabemos ser falso:
Dentro da torre, a fumaça dos archotes irritou-lhe os olhos, mas Cersei não chorou, como o pai não teria chorado. Sou o único verdadeiro filho que ele teve.
Notadamente, se Bran, o warg mais poderoso entre seus irmãos, não sabe que Vento Cinzento está morto, então como podemos saber que Vento Cinzento está morto?
Salladhor Saan e Merrett Frey confirmaram que Vento Cinzento está morto, não? Sim, sobre isso ... Salladhor Saan:
Por um momento, pareceu que o rei não tinha ouvido. Stannis não mostrou qualquer prazer com a notícia, nem ira, nem incredulidade, nem mesmo alívio. Encarou a sua Mesa Pintada com os dentes cerrados com força.
– Tem certeza? – perguntou.
– Não estou vendo o corpo, não, Vossa Realdade – disse Salladhor Saan. – Mas na cidade, os leões pavoneiam-se e dançam. O povo está chamando de o Casamento Vermelho. Juram que Lorde Frey cortou a cabeça do rapaz, costurou a cabeça do lobo gigante dele no lugar e pregou uma coroa sobre as orelhas. A senhora mãe dele tambémfoi morta e atirada nua ao rio.
(ASOS, Davos V)
E onde Salladhor conseguiu suas informações? Porque os plebeus sempre são precisos em suas histórias, certo?
O povo diz que o último ano do verão é sempre o mais quente. Não é bem assim, mas muitas vezes parece que é, não é verdade? (AGOT, Eddard V)
O povo diz que foi o fantasma do Rei Renly, mas homens mais sensatos sabem quem foi. (ACOK, Tyrion XV)
O vidro de dragão é feito por dragões, como o povo gosta de dizer? (ASOS Samwell II)
Em Valdocaso os plebeus ainda amam Lorde Denys, apesar da desgraça que lhes trouxe. É à Senhora Serala, sua esposa de Myr, que atribuem a culpa. Chamam-na a Serpente de Renda. Se ao menos Lorde Darklyn tivesse se casado com uma Staunton ou uma Stokeworth... bem, sabe como os plebeus gostam de falar. A Serpente de Renda encheu os ouvidos do marido com veneno de Myr, eles dizem, até que Lorde Denys se ergueu contra seu rei e o tornou cativo. (AFFC Brienne II)
Isso foi antes de morrer – o jovem Sor Arwood Frey disse. – O povo diz que a morte o mudou. Pode matá-lo, mas ele não permanece morto. Como se luta com um homem assim? E também há o Cão de Caça. Ele matou vinte homens em Salinas. (AFFC, Jaime IV)
Bem ... os plebeus não estão sempre errados. Mas eu não confiaria nos relatos deles deles como definitivos em nada.
Merrett Frey:
[...] o lobo gigante do Stark matou quatro de nossos lobeiros e arrancou o braço do mestre dos canis de seu ombro, mesmo depois de o enchermos de dardos...
– E por isso costurou a cabeça dele ao pescoço de Robb Stark depois que os dois estavam mortos – disse o do manto amarelo.
– Foi o meu pai que fez isso. Tudo o que eu fiz foi beber. Não mataria um homem por beber. [...]
(ASOS, Epílogo)
Por ter estado lá, ele deve se lembrar com precisão, certo?
Ah, exceto pela parte em que ele estava babando bêbado na época e provavelmente não se lembra de nada muito claramente.
Grande-Jon já estava para lá de bêbado. O filho de Lorde Walder, Merrett, estava competindo com ele, taça atrás de taça, mas Sor Whalen Frey desmaiou tentando acompanhar os dois. Catelyn teria preferido que Lorde Umber tivesse achado por bem permanecer sóbrio, mas dizer ao Grande-Jon para não beber era como lhe pedir para não respirar durante algumas horas.
(ASOS, Catelyn VII)
E você leia atentamente, verá que Merrett não disse que viu isso acontecer. O que Merrett viu foi Vento Cinzento livre e matando pessoas, apesar de estar cheio de dardos. Foi Limo quem sugeriu que a cabeça do lobo havia sidocosturada em Robb. E a resposta de Merrett? "Foi o meu pai que fez isso. Tudo o que eu fiz foi beber."
Então, Salladhor Saan sabe que isso acontece porque os plebeus dizem que aconteceu. E Merrett Frey estava lá, mas bebeu o suficiente para que seu irmão desmaiasse de bêbado. E ele não mencionou a costura da cabeça. Foi acusado disso e depois transferiu a culpa para o pai (que obviamente não fez isso por conta da idade avançada).
Finalmente, temos dois pontos de vista em ADWD que interagem com um grande número de Freys. Aqueles Freys, que estavam no Casamento Vermelho e não estavam bêbados, contam muitos contos, mas nenhum deles menciona uma cabeça de lobo sendo costurada no corpo de Robb. Isso não significa que não aconteceu, mas questiona quem diz que aconteceu.
Então, a cabeça de um lobo foi realmente costurada no corpo de Robb? Talvez. A cabeça de Vento Cinzento foi costurada no corpo de Robb? Umm ... não, isso é, provavelmente, logisticamente impossível.
O pescoço do homem comum tem 16 polegadas de circunferência. O pescoço médio do pastor alemão tem 18 polegadas de circunferência e é provavelmente comparável ao de um lobo cinza comum. Você poderia costurar a cabeça de um lobo no corpo de um homem e sabemos que há uma matilha gigante de lobos na área graças a Nymeria.
Por outro lado, Vento Cinzento é um lobo gigante. Qual é o tamanho do pescoço de um lobo gigante?
Meio enterrada na neve manchada de sangue, uma forma enorme atolava-se na morte. Em sua desgrenhada pelagem cinzenta formara-se gelo, e um tênue cheiro de putrefação impregnava-a como perfume de mulher. Bran viu de relance os olhos cegos repletos de vermes, uma grande boca cheia de dentes amarelados. Mas foi o tamanho da coisa que o fez ficar de boca aberta. Era maior que seu pônei, com o dobro do tamanho do maior cão de caça do canil de seu pai.
– Não é aberração nenhuma – disse Jon calmamente. – Isso é uma loba gigante. Esses animais crescem mais do que os da outra espécie.
(AGOT, Bran I)
Maior que um pônei e duas vezes o tamanho do maior cão do canil? Bem, se o pescoço tem o dobro do tamanho dos cães de caça maiores, podemos dizer com segurança que tem mais de 36 polegadas de circunferência - boa sorte costurando isso no corpo de um homem grande. Talvez devêssemos fazer a comparação do pônei. A circunferência média do pescoço de um pônei é de 40 polegadas... Mesmo se aceitarmos, argumentando que Gray Wind não estava completamente crescido como sua mãe, sua cabeça ainda é grande demais para caber no corpo de Robb. Se uma cabeça foi costurada no corpo de Robb, era a cabeça de um lobo normal, não a de Vento Cinzento.
Portanto, vimos que não temos relatos reais em primeira mão do que aconteceu, exceto o de Merrett, que provavelmente não é super preciso e que confirma que Vento Cinzento foi libertado. Também temos uma segundo relato de Walder Rivers e Edwyn Frey. Essas são os únicos relatos diretos que temos do que aconteceu com Vento Cinzento.
– [...] Diga-me, Sor Raynald Westerling conta-se entre esses cativos?
– O cavaleiro das conchas? – Edwyn fez uma expressão de desprezo. – Esse pode ser encontrado alimentando os peixes no fundo do Ramo Verde.
– Ele estava no pátio quando nossos homens foram abater o lobo gigante – disse Walder Rivers.– Whalen exigiu-lhe a espada, e ele a entregou com bastante docilidade, mas quando os besteiros começaram a encher o lobo de flechas, pegou no machado de Whalen e libertou o monstro da rede que lhe tinham atirado. Whalen diz que recebeu um dardo no ombro e outro nas tripas, mas ainda conseguiu chegar ao adarve e se atirar no rio.
(AFFC, Jaime VII)
Então, sabemos que Raynald foi capaz de lutar e fugir, pelo menos até certo ponto, e que ele foi capaz de libertar Vento Cinzento. Então, GRRM nos diz que não sabemos se Reynald foi morto. Se não sabemos se eles foram capazes de matar Raynald, como saberemos que eles foram capazes de matar Vento Cinzento?
– Deixou uma trilha de sangue nos degraus – Edwyn acrescentou.
– Encontraram seu cadáver mais tarde? – Jaime quis saber.
– Encontramos mil cadáveres mais tarde. Depois de passarem alguns dias no rio, ficam todos muito parecidos uns com os outros.
(AFFC, Jaime VII)
Nota-se que ele não diz que eles encontraram um cadáver usando o brasão dos Westerling, que ele afirma conhecer. "O Cavaleiro das Conchas?" Seu conhecimento do brasão também implica que Raynald usava o brasão, o que o tornou bem conhecido pelos outros. É improvável que Edwyn estivesse familiarizado com os brasões de casas menores do Ocidente. Eles encontraram corpos, mas aparentemente nenhum ostentava o símbolo conhecido do cavaleiro das conchas. Isso significa que Raynald provavelmente está vivo, ou pelo menos que seu corpo nunca foi encontrado. Se Raynald está vivo, Vento Cinzento provavelmente também está vivo. Eu acho que teria sido mais fácil para Vento Cinzento escapar do que Raynald. Afinal, Vento Cinzento foi nomeado por ser muito rápido:
Robb chamara seu lobo de Vento Cinzento, porque ele corria muito depressa. (AGOT, Bran II)
Como muitos respondem a quaisquer teorias apresentadas aqui ou em outros lugares, “qual seria a função narrativa da história/enredo da sobrevivência de Vento Cinzento?” Bem, muitos falaram sobre o significado de Sansa e Arya perderem seus lobos e, assim, se separarem de sua "matilha". O simbolismo é óbvio. E para Arya, enquanto ela está longe de sua "matilha", Nymeria ainda está viva e ligada à família, ela pode encontrar o caminho de volta e se reunir com sua loba gigante. Pobre Sansa - ela não tem uma loba para recuperar…
Notavelmente, muitas teorias sobre Sansa teorizam que, depois de perder Lady, ela simbolicamente deixou de ser uma Stark e que sua história acabará por torná-la uma Stark novamente. Que melhor maneira de voltar ao grupo do que recuperar um lobo gigante….
Ele os enfeitiçou, pensou Alayne naquela noite, enquanto, na cama, ouvia o vento uivar junto às suas janelas. Não saberia dizer de onde a suspeita viera, mas uma vez que lhe atravessou a mente não a deixou dormir. Virou-se e se remexeu, roendo a ideia como um cão faria com um velho osso. Por fim, levantou-se e se vestiu, deixando Gretchel com seus sonhos.
(AFFC, Alayne I)
Além disso:
Havia gelo sob seus pés e pedras quebradas só à espera para torcerem um tornozelo, e o vento uivava ferozmente. Soa como um lobo, Sansa pensou. Um lobo fantasma, tão grande quanto as montanhas.
(AFFC, Alayne II)
Olá, Vento Cinzento! E ao entrar na pele de simbolicamente, ela poderá sentir a presença de Robb ainda lá. Afinal, suas últimas palavras ecoam a última palavra de Jon. "Vento Cinzento ..." "Fantasma".
EXTRA 1: Evidência de que a Muralha não impede o aviso ou os lobos-diretos de se sentirem:
Em A Fúria dos Reis, Jon está ao norte da Muralha com Qhorin Meia-Mão quando ele tem este sonho:
Havia cinco onde devia haver seis, e estavam espalhados, todos separados uns dos outros. Sentiu uma profunda sensação de vazio, de incompletude. A floresta era vasta e fria, e eles eram tão pequenos, tão perdidos. Os irmãos estavam longe, em algum lugar, e a irmã também, mas tinha perdido seus rastros. Sentou-se nos quartos traseiros e levantou a cabeça para o céu que escurecia, e seu choro ecoou pela floresta, um som longo, solitário e lamentoso. Enquanto o som morria, aguçou as orelhas, à escuta de uma resposta, mas o único ruído foi o suspiro da neve soprada pelo vento.
Jon?
O chamado veio de suas costas, mais baixo do que um sussurro, mas forte. Pode um grito ser silencioso? Virou a cabeça, em busca do irmão, de um vislumbre de uma silhueta esguia e cinzenta em movimento sob as árvores, mas nada havia, só…
Um represeiro.
Parecia ter brotado da rocha sólida, com as raízes brancas contorcendo-se de uma miríade de fissuras e rachaduras finas como fios de cabelo. A árvore era fina comparada com outros represeiros que tinha visto antes, pouco mais do que um broto, mas crescia diante de seus olhos, com os galhos engrossando à medida que se estendiam para o céu. Com prudência, deu a volta no tronco branco e liso até encontrar o rosto. Olhos vermelhos olhavam-no. Eram olhos ferozes, mas satisfeitos por vê-lo. O represeiro tinha o semblante do irmão. Teria o irmão sempre tido três olhos?
(ACOK, Jon VII)
Pela maneira como é descrito, parece que isso é veio do Bran pós-Corvo de Sangue, mas esse não é o caso. Afinal, como vimos em A Fúria dos Reis:
Ali, na escuridão frígida e úmida da tumba, seu terceiro olho finalmente abrira-se. Conseguia alcançar Verão sempre que quisesse, e uma vez tinha até mesmo tocado Fantasma e falado com Jon.
(ACOK, Bran VII)
Bran estava em Winterfell, Jon e Fantasma estavam ao norte da Muralha, e Bran estendeu a mão e tocou Fantasma e conversou com Jon. A parede não bloqueia a detecção dos outros lobos.
Além disso, em A Tormenta de Espadas, Fantasma está ao norte da Muralha e Verão não, mas é isso que Verão pensa:
Mas às vezes conseguia senti-los, como se ainda estivessem com ele, escondidos de sua vista apenas por um pedregulho ou um pequeno bosque. Não era capaz de cheirá-los, nem de ouvir seus uivos noturnos, mas sentia a presença deles atrás de si... todos menos a irmã que tinham perdido.
(ASOS, Bran I)
Então isso novamente parece indicar que Verão podia sentir Fantasma, mesmo quando ele estava ao norte da Muralha.
Finalmente, a Muralha não era uma barreira para Varamyr entrar na pele da águia de Orell:
O troca-peles tinha um rosto cinzento, ombros redondos e era calvo, um homem que mais parecia um rato com olhos de lobisomem.
– Depois de um cavalo se habituar à sela, qualquer homem pode montá-lo – disse ele em voz baixa. – Depois de um animal se juntar a um homem, qualquer troca-peles pode entrar nele e montá-lo. Orell estava definhando dentro de suas penas, por isso fiquei com a águia. Mas a junção funciona nos dois sentidos, warg. Orell agora vive dentro de mim, murmurando como o odeia. E eu posso pairar por cima da Muralha e ver com olhos de águia.
– É assim que sabemos – disse Mance. – Sabemos como vocês eram poucos quando detiveram a tartaruga. Sabemos quantos vieram de Atalaialeste. Sabemos como seus suprimentos minguaram. Piche, óleo, flechas, lanças. Até a escada desapareceu, e aquela gaiola só pode içar uns poucos. Nós sabemos. E agora você sabe que sabemos.
(ASOS, Jon X)
Não acho que a Muralha bloqueie a mudança de pele ou impeça os lobos gigantes de sentirem uns aos outros.
EXTRA 2: Por que Vento Cinzento não pode ser detectado?
Eu acho que há várias possibilidades que explicam Vento Cinzento não ser sentido. Estas são as três que considero mais fortes:
  1. Vento Cinzento agora é especial entre os irmãos lobos gigantes, já que ele não tem mais seu ser humano. Isso pode interromper a conexão que lhes permite sentir um ao outro.
  2. Se Robb entrou na segunda vida em Vento Cinzento, pode ser que Fantasma não o sentisse mais como irmão - ele agora é um ser composto (Robb + Vento Cinzento) em vez de um ser autônomo.
  3. A capacidade de sentir um ao outro depende da força de vida dos irmãos. Mesmo que tenha sobrevivido, Vento Cinzento ficou gravemente ferido e pode estar à beira da morte, sem força vital suficiente para que seus irmãos o sintam.
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2019.07.09 12:18 lipherus Íbis — Capítulo I

Bom dia, é a primeira vez que escrevo em primeira pessoa e gostaria de opiniões. =)
“A voz dos deuses e escolhida de Thot. No começo, era apenas uma Oráculo. Depois, uma bruxa queimada na fogueira do deus pagão. Espírito vagante sem salvação. E agora, protegida pelo crepúsculo Retorna aos braços d’Aquele que sempre a amou. Sob as asas d’Ele, ela se abrigou. E descansou.”
O pequeno e singelo poema cortou o silêncio do salão. Eu estava trêmula e ofegante, pois estava atrapalhando a palestra do meu professor e a grande oportunidade de sua carreira. Os estudiosos olhavam para Heru e depois para mim, à espera de alguma cena dramática que não aconteceu. Ele apenas desceu do palanque e me alcançou, sorrindo e igualmente trêmulo ao tomar o papel de minhas mãos. Murmurou agradecimentos e disse estar surpreso com a tradução, porque aquelas palavras deixavam explícitas que os antigos egípcios eram capazes de prever o futuro. Prometeu uma conversa sobre o papiro depois e pediu que eu me retirasse, mas não sem antes me agradecer de novo. Ao fechar a porta, explodo em lágrimas emocionadas e cansadas. Traduzir o poema foi um trabalho árduo de quase quatro anos, para no final descobrir que Thot havia se apaixonado por uma mortal e enterrou seu corpo em uma tumba sem glamour. Ele queria que sua amada permanecesse anônima, mas que ainda soubessem a quem pertencia. Ela não tinha um nome e sequer corpo, todavia sua existência estava cravada nas paredes de pedra do sarcófago. Levanto-me orgulhosa e volto para o laboratório, à procura de mais pistas sobre os amantes. Havia algo que ainda não tinha visto nas marcas e, mexendo em alguns pertences, um pingente em forma de meia lua cai no chão. Não sou perita em metais preciosos, mas sei que seguro algumas boas gramas de ouro puro. Procuro por escritos no verso da peça, e nada encontro, salvo os hieróglifos que remetiam a Osíris e Thot. Um presente para o deus do submundo? Depois de catalogar o colar, volto minha atenção aos textos até sentir dor de cabeça e sentar na cadeira. — Nailah, o professor Heru te chama no salão de convenção. Engulo em seco e vou até ele, esperando uma bronca por ter interrompido a palestra. Porém, ao entrar, fui recebida por salvas de palmas fervorosas. Ele me abraça e pede que explique aos demais sobre a descoberta, já que o mérito da tradução é todo meu. Sinto um misto de vergonha e emoção, porque Heru não tomou os créditos para si e deixou que eu, uma mera assistente, falasse aos melhores profissionais do mundo por horas a fio. Ele ficou ao meu lado para explicar alguns termos que não conheço, simplificar perguntas e traduzir algum outro idioma que não entendo. Ao terminar, pude respirar. Estou tão cansada que é difícil manter os olhos abertos e pensar, mas eu ainda preciso falar com ele. Despeço dos outros por alguns minutos e Heru me abraça de novo, sugerindo um jantar antes de irmos para casa e dormir. Aceito e nós fechamos o laboratório depois de pegar algumas coisas. "Sob as asas d’Ele, ela se abrigou.” É engraçado como essa frase ecoa na minha cabeça quando estou andando lado a lado com Heru. Eu o conheço há quase dez anos e nunca deixei de me sentir protegida e iluminada por sua presença. Ele é alto e imponente, com a pele tão preta que é quase avermelhada, e olhos espertos e pretos. Mas, basicamente, Heru Monterrey é um cachorro grande e bonachão que ladra e não morde. É muito fácil deixá-lo magoado e à beira de lágrimas, se quer saber. E eu amo ver esse lado sensível e frágil do meu professor, pois o torna humano e acessível. Ninguém imagina que um pesquisador de renome como ele é coração mole. — Eu encontrei isso. — entrego o colar em suas mãos. — Estava perdido no meio dos papéis. Parece que é uma oferenda a Osíris e Thot. — Ou uma oferenda de Thot para Osíris? Coço a cabeça e suspiro. — Não tinha pensado nisso. — confesso. — Nailah, você está esgotada e eu acho que deva tirar umas férias. — ele toca no meu rosto. — Eu estou pensando em dar um tempo também, podemos viajar juntos. — Quem convida é quem paga, viu? — empurro ele com meu ombro e sorrio. — Seria uma bênção poder dormir até tarde. — Pode ficar com a lua. Pego o colar e olho pra ele, chocada. Sabe-se lá de quando é a oferenda e Heru estava entregando casualmente pra mim, como um pingente comprado numa loja qualquer. Abro a boca inúmeras vezes, mas nenhuma palavra decente sai dela e só me limito a levantar as tranças pra facilitar o trabalho dele. Heru me julga por um tempo, ajeita e mexe no colar até deixá-lo bem em cima do meu coração e ficar satisfeito. — Tem certeza? — murmuro. — Isso é da sacerdotisa e não quero que Thot venha me assombrar. — Se Ele deu pra amada d’Ele, acho que não ficará bravo se eu der pra minha, não acha? Abaixo os olhos, subitamente tímida. Nós sempre brincamos com nossos colegas, que consideravam-nos namorados, mas ele nunca falou tão sério quanto aquele momento. Mordo meus lábios e seguro sua mão, sem dar resposta, mas deixando claro que se aquele é o sentimento dele, então é recíproco. Às vezes palavras não ditas fazem mais efeito do que aquelas expressadas aos quatro ventos. — Comida japonesa? — Heru pergunta para quebrar o gelo. — Depois umas doses de anti-histamínico pra não morrer de alergia? — Combinado. Saber que ele é apaixonado por mim tanto quanto sou por ele fez um bem danado pra minha auto-estima. Se antes e em algum momento da minha vida achei que não era bonita ou capaz, estava completamente enganada. Ouvir dos lábios dele que minha inteligência e devoção foram fatores cruciais para que ele se interessasse, tornou-me tão inchada quanto um balão. Depois, Heru começou a enumerar minhas qualidades físicas e só parou quando eu estava com a cara quente e prestes a surtar. Eu sou brasileira e me orgulho disso. Meu país tem os problemas dele, assim como os Estados Unidos também têm, mas nunca pensei que estudar na Unesp ia me levar até onde estou. Lembrei das noites acordada estudando infindáveis textos, das vezes que quis desistir e da minha felicidade por ter sido aprovada na faculdade que ele dá aula. E passei a amar meu corpo em forma de pera, os cabelos trançados e coloridos e, acima de tudo, a cor da minha pele. Antes tinha um grande tabu comigo mesma, por ser preta e ter uma posição de destaque, mas conforme fui aprendendo na faculdade e com a vida, percebi que estar ali é um mérito do meu esforço triplicado. No final da noite, eu e Heru transamos e dormimos juntos. Foi o momento em que eu o vi mais vulnerável, conheci cada cicatriz de seu corpo, os problemas que tinha, as marcas... Tudo. Ele se entregou completamente e assim também fiz, mostrando-lhe as feridas que tenho da época em que me afundei em depressão e cortei meus braços e pernas. — Bom dia. — ouço seu preguiçoso resmungo enquanto ele aperta minha barriga. — Agora posso morrer em paz. — Quer parar com isso? — começo a rir e abro meus olhos. — Bom dia. — Eu sempre quis apertar sua, como é que você chama? Pança. — seu português falho é particularmente adorável. — Eu amo essas dobras, sabia? — Heru! Para, sua mão tá gelada! — Tá bom, tá bom. Permissão pro abraço? — Concedida, senhor Monterrey. Enquanto ele toma banho, vou preparando o café da manhã. É inconsciente, mas eu checo minha barriga e conto as dobrinhas, três no total, pensando em como Heru pode achar aquilo interessante. Ouço seus passos ecoando pelo corredor e me viro para olhá-lo, namorando a cena do homem enrolado na toalha e molhado ainda. Ele se aproxima e ajeita a lua, jogando as tranças sobre meus peitos para tapá-los e evitar que eu pegue mais friagem. Seguro sua mão em meu rosto e fecho os olhos, sorrindo como a trouxa que sou. — Vai querer viajar? — Onde pretende ir? — roubo um selinho dele antes de servir a mesa. — Não vai entregar o artigo científico sobre a tradução? — Não está escrito em lugar algum que sou obrigado a trabalhar durante minhas férias. — ele dispara. — Pensei em alguma praia, sei lá. — Negão desaforado. — acerto a colher de pau na cabeça dele. — Praia é muito clichê e eu não sou muito fã do frio. — Patroa difícil de agradar, viu? Sento ao seu lado e começo a rir. Ele está tão à vontade que até parecemos casados há eras, e eu só sinto que vou desmanchar de felicidade. Nós conversamos um pouco mais sobre a tradução e Heru corrige o inglês, reclamando do quanto sou ruim para escrever. Tal afirmação me ofendeu um pouco, já que escrevo fanfics durante minhas folgas e nem formado nisso ele é. Começo a julgá-lo em silêncio e ele percebeu que tinha me magoado, em seguida pediu desculpas atrapalhadas e disse que ama minha escrita. — Como você imagina Thot de personalidade, Nailah? — Meio parecido com você, mas muito mais apaixonado pelo trabalho. Ele foi um carinha muito ocupado, até ajudar Osíris no submundo ajudou. — acendo meu baseado e deito no sofá enquanto Heru escreve no computador. — Curou o olho de Hórus quando Seth arrancou, depois ensinou magia para Ísis poder reviver o marido, luta contra Apófis quando Amon-Rá traz o sol... Tudo isso e ele ainda fez o calendário e desenvolveu os hieróglifos. — Você tem uma admiração enorme pelos deuses, hum? — A mitologia egípcia é linda, se me permite dizer. Tudo é tão conectado e diferente ao mesmo tempo... A gente não sabe nem um terço do que eles acreditavam e criavam. — E a sacerdotisa? — Não tenho uma imagem dela. — ofereço o cigarro pra ele. — Mas deve ser alguém de personalidade parecida com a de Thot, porque ela pegou o cara pelo colarinho mesmo. Uma pena que não seu nome em lugar nenhum, ia ser muito interessante conhecê-la melhor para entender como funciona esse lance de deuses e amores mortais. — Você viu isso? Sento no colo dele para ler o artigo de um colega nosso, o qual afirmava que Sekhmet e Anúbis tinha um relacionamento secreto. Para mim e meu conhecimento, a afirmação é errada pois eles eram deuses sem sintonia alguma. Ela é a deusa da guerra, tão furiosa que Rá precisou enganá-la com vinho para acalmar seu frenesi sangrento. Já ele parece ser mais pacato e melancólico, servindo fielmente ao propósito do julgamento da pena e à proteção da mumificação. Parecia impossível imaginá-los juntos. Ao terminar de ler, porém, comecei a ter minhas dúvidas sobre o que conhecia até então. — Será que existe algum documento que prova essa teoria? — Antes de Osíris ser quem é, Anúbis tinha o mesmo papel que ele. — Heru contestou ao soprar a fumaça na minha nuca. — Se Sekhmet matou os homens através de sua ira, é bem provável que tenha o encontrado durante a caminhada. — Mas tem uma teoria que diz que Sekhmet é uma face de Hathor e Bastet... Será? — Em Mênfis, ela foi esposa de Ptah e mãe de Nefertun até Mut e sua Tríade tomar lugar e ela passar a considerada como a própria Mut. Nossas informações são bem escassas e temos várias ideias do que pode ou não ser. Cada região tinha seu próprio mito, quem sabe o Richard esteja certo e apenas olhando para outro lugar que não vemos? Deixamos a discussão pra lá quando pegamos fogo levados pela maconha. Quando paro pra pensar nisso, me sinto um pouco culpada por levá-lo ao mau caminho, apesar dele ser bem mais velho que eu. Mas a erva funciona como uma válvula de escape para nós e não é algo que fazemos sempre, resumindo nossas brisas às escavações e trabalho. Pela primeira vez desde que fazemos isso, é que nos preocupamos em elevar a coisa para um nível mais pessoal e físico. Eu namoro o rosto distraído dele e lembro de tratar os arranhões que deixei em suas costas, ouvindo-o dizer coisas em árabe que não fazia nem questão de traduzir. Heru levanta-se num supetão e vira o meu colar, anotando os hieróglifos em um papel improvisado e resmunga ao voltar a deitar. Já sei que tenta entender a oferenda e pronuncia as palavras em sequências variadas, até fazer sentido. Toco em seu lábio para fazê-lo se calar e me aninho em seu abraço. Só hoje, querido, não falemos em trabalho. Roço meu nariz por seu rosto quadrado e reclamo da barba áspera, mas sinto-me protegida por seus braços e mãos sempre geladas. Heru beija a minha testa e desenha com os dedos na minha bunda, me fazendo rir. Ele se lembra de me agradecer pela tradução de novo e mais outras vezes, reforçando o quão honrado se sentiu por me ter como sua assistente, amiga e agora parceira. Confessa que estava a um passo de desistir do texto e eu, novamente, rogo-lhe que não falemos de trabalho. Mas meu amado professor não está contente e me implora para que façamos um artigo sobre Thot e sua amante ao voltarmos de férias.
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2018.12.11 18:32 GabrielRock18 Red Falls - Web Serie 01

Nota Inicial: Dedico essa história a Antônia Lucena de Moraes, a minha eterna avó e inspiração. Essa história também vai aos meus amigos verdadeiros... Primeiro Capítulo: O Começo Em uma grande cidade, que se localizava nos Estados Unidos, de nome Red Falls, guardava segredos de uma geração passada que levará três grandes amigos na maior aventura de suas vidas. Aventura essa que dava direito a uma procura por tesouros, relíquias poderosas, entre outros. Em uma bar e restaurante chamado Falls, um jovem rapaz, de coração bom, determinado, chamado: Arthur Miriel, foi pra lá, mas não com a intenção de beber, mas sim de encontrar seus amigos, os quais haviam sidos criados desde de pequenos, o nome deles era: Fred Booking, dono do Falls e empresário bem sucedido e Amanda Hallowerd, que era além de bonita e modelo de respeito, tinha também um escritório e era uma historiadora de grande nome e conhecida por todos. - Oi gente. – Falou chegando da universidade, de mochilas nas costa, cansado, mas feliz pois tinha algo bom para contar. – Fred como foi o seu dia por aqui? Muito movimento. – Falou Arthur sentando no balcão e colocando sua mochila vermelha da sorte em baixo, pois as cadeiras eram grandes. - Foi bom, apesar de estamos no meio da semana, o movimento está ótimo. – Falou com sorrindo e bebendo um cole de suco de limão com hortelã, além de ser o seu preferido fazia bem para a saúde. – Então como foi na prova que você foi fazer? – Perguntou curioso olhando para Amanda que estava sentada ao lado de Arthur. - Só tirei um 9,5. – Respondeu com um brilho nos olhos e dando-se crédito. - Parabéns Arthur. – Falou Amanda pegando no braço direito de Arthur. – Logo você estará formado. – Completou orgulhosa do amigo. - Parabéns. – Afirmou Fred sorrindo. - Obrigado pessoal. – Respondeu de Cabeça baixa, pois estava com um pouco de vergonha. – Quando eu terminar a faculdade e tiver dinheiro, vou retribuir tudo o que vocês fazem por mim. – Falou como se estivesse prometendo algo. - Cara deixa de falar besteiras. – Falou Fred olhando para Amanda, que logo em seguida completou a fala do amigo. - Arthur você foi criado conosco desde de criança. – Afirmou, pensou um pouco e completou. – Quando seus pais morreram naquele acidente de carro, apesar de eu e o Fred sermos crianças, prometemos para a sua mãe que tomaríamos conta de você, então você não nos deve nada. – Falou Amanda com voz meiga e suave. - Mas de uma determinada forma, eu tenho que fazer alguma coisa para ajudar vocês, não posso deixar tudo em suas mão. – Afirmou o rapaz de cabeça baixa e olhos cheios de lágrimas. - Já que você quer tanto fazer algo. - Falou Fred pensativo. – Sabe o que pode fazer? Continuar fazendo aquelas suas comida de dar água na boca. – Falou batendo no balcão. – E o Falls precisa de um cozinheiro novo, o Roberto irá sair, segundo ele o mesmo vai voltar para o Brasil. Então o que me diz, você topa? – Perguntou Fred animado olhando para Arthur que abriu um enorme sorriso e respondeu. - Claro, que eu topo. – Afirmou estendendo a mão a Fred que pegou na mão dele animado. - Ótimo. – Falou olhando para sua garçonete de nome: Pativa, que era seu braço direito no Falls. – Pativa! – Gritou. - Sim Fred? – Respondeu a moça se aproximado de onde a turma estava. - Uma rodada de tequila para todos. – Falou com um enorme sorriso. Os três amigos começam a rir. - Fred a que horas o Falls fecha hoje, - Perguntou Amanda depois de beber seu dose de tequila. - Às 23 horas, hoje como é metade da semana eu fecho mais cedo. – Falou olhando para o relógio. - Ok. – Amanda olha para Arthur que estava mexendo no celular. – Então a gente espera fechar e vamos todos juntos para casa, né Arthur? – Falou Amanda olhando para o jovem que rapidamente guarda o celular e responde. - Claro. - Responde alguns segundos depois O tempo passou depressa e quando todos perceberam já era a hora de Fred fechar o Falls, como era de costume, o rapaz fechou o caixa e pediu para Pativa fechar o lugar, em seguida foi para o seu carro, que era uma Land Rover, prata de modelo atual. No caminho de volta para casa a turma conversou sobre tudo, falaram da economia atual, ouviram música era sempre assim quando os três estavam juntos. Fred era o motorista porque sabia como ninguém conduzir um carro, Amanda fica na frente, no banco do passageiro ao lado de Fred e Arthur sempre ficava no banco de trás. O noite estava escura, havia uma pequena nevoa que cobria o lugar a única coisa que brilhava naquilo tudo era as luzes do semáforo e o fraco claro que as luzes públicas faziam, Fred parou em um sinal. - Nossa esse sinal está demorando abrir. – Falou Fred olhando para os lados e vendo as ruas desertas. - Calma. – Falou Amanda colocando a mão no ombro dele. – Aliás só para constar você já passou aqui milhões de vezes, então não há motivo para ficar com rosto parecendo que viu um fantasma. - Amanda tem razão, e como hoje é meio de semana já era de se esperar que o movimento seja pouco. – Falou Arthur olhando em volta. - Vocês tem razão deve ser. – Afirmou o rapaz vendo que o sinal havia ficado verde. Quando Fred ia acelerando um homem, careca, branco, com roupas rascadas se jogou contra o carro, o que chama atenção no mesmo não era suas características, mas sim a grande quantidade de sangue o banha o homem. O rapaz por sua vez que estava dirigindo segui em linha reta com uma velocidade tão elevada que jogou o corpo longe, no entanto havia ficado um papel colado na para-brisas do carro. Chegando em sua casa, que parecia mais uma mansão... - Oh meu deus, o que foi aquilo? – Perguntou Amanda reparando no papel colado. - Está perguntando para a pessoas errada, nunca mais eu irei por aquela rua, acho que nunca mais vou dirigir. – Falou Fred assustado e sem fôlego. - Amanda que cara é essa? – Perguntou Arthur. – Está assustada também? – Completou. - Não. – Responde pegando o papel que estava no para brisas. – Vejam! – Mostra o papel e em voz alta ler o que está escrito. – “Ele está voltando, o grande mal cairá sobre essa cidade e ninguém será capaz de detê-lo. - O que isso quer dizer? – Perguntou Arthur com um frio na barriga, como se algo ruim fosse acontecer. - Não faço a menor ideia. - Então façamos o seguinte: Fred terá mais cuidado amanhã, você leva o bilhete para o seu escritório e eu vou para a minha escola. – Afirmou Arthur com voz de um verdadeiro líder, quando ia saindo o mesmo reparou em uma imagem apagada. – Vejam tinha uma imagem apagada no verso, Amanda veja se consegui restara-lo. Todos foram para os seus quartos, ficaram inquietos, e mau conseguiram dormir. Na faculdade de Arthur no dia seguinte. - Senhor Miriel? – Falou Neves professor de história regional. - Sim? – Respondeu se aproximando, pois já havia tocado e o mesmo estava indo para o Falls. - Você poderia me dizer onde viu esse símbolo, que o senhor desenhou na prova? – Falou o professor mostrando um símbolo que era: uma espécie de triangulo, com um círculo em volta e continha um desenho pequeno de algumas aramas. - Para lhe ser sincero, eu não fazia ideia de que tinha desenhado isso. – Respondeu confuso. - Que estranho. – Falou mexendo nos óculos. – Para lhe deixar informado, esse símbolo em questão representa os três guerreiros que salvam Boca do Ouro, antes de se torna Red Falls no passado, cada arma representa um deles e por incrível que possa parecer você as desenhou bem consigo velas claramente. – Parou com sua fala, tomou um copo de café e em seguida concluiu. – Esse é o Martelo do Leão que faz referência ao espirito da terra, por isso está no topo, essas são as Adagas do Tubarão, que fazem referência ao espirito da água, por isso ele fica no lado esquerdo e por vim essa é a Espada da Águia, faz referência ao ar e pega o seu lugar no lado direito. – Falou apontando para cada arma. – Diz a lenda que quando essas aramas se juntam, nada ou ninguém pode detê-las, nem mesmo a arma mais sofisticada do homem. Arthur pega a prova e sai correndo, vai direto para o Falls contar a Fred o que havia acontecido. - Que cara é essa? – Perguntou Fred ao ver Arthur chegar com rosto branco como se algo ruim tivesse acontecido. - Olha aqui! – Mostrou a prova a Fred. - Tá. – Falou Fred Rindo. – Arthur isso é um dez, você sempre tira nota boa, pra que o espanto? - Não é a nota, é o símbolo. – Falou apontando. - É um símbolo? Achei que era um rabisco muito mal feito. – Falou dando risada. – O que significa? - O senhor Neves falou que representa a fundação de Red Falls. – Falou olhando para a prova. Amanda chega. - Por que você desenhou esse símbolo? – Perguntou Amanda olhando para a prova de Arthur. - Eu não sei. – Falou Confuso. - Amanda o que esse desenho significa? – Perguntou Fred. - Representa a passagem de Boca do Ouro para Red Falls e com esse desenho, me faz crer que o aviso de ontem tem ligação. – Afirma Amanda preocupada. - Se tiverem relação, o que pode acontecer. – Perguntou Fred. - Boa coisa que não é. Olha meu professor falou que três pessoas, com três armas derrotaram um grande mal no passado daí a cidade foi construída. – Falou Arthur. - Então quer dizer que se o aviso de ontem e a Coincidência de Arthur estivem ligados, isso irá significar que algo de ruim vai acontecer? – Afirmou Fred. - Pior do que isso, Red Falls e o mundo correm perigo. – Completou Arthur. Nota Final: Se Você gostou do primeiro capítulo, deixe seu comentário a baixo e compartilhe com todos os seus amigos e não esqueça, próxima semana tem mais um capítulo inédito, feito especialmente para você meu leitor querido. Milhões de Beijos e até a próxima semana. Observação: Capítulo Escrito por Luiz Gabriel Lucena 

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2018.11.04 21:29 RemusLupulo dia 21 de outubro, 3 domingos atrás. E ontem, transamos...

"Com um word na mão eu consigo escrever até o fim do mundo, com minhas conclusões desesperadas. Isso é o que o um dia me reserva, pois minha posição me limita a muita coisa. Eu não sou mais o cara do “vamos”. Eu não posso aceitar mais qualquer coisa. Seja mais conservador em seus pensamentos, por mais que esse pensamento seja o mais liberal possível. Mantenha sua ética interna de coisas que tu não quer para ti mesmo. E isso foi o rolê de hoje. Se eu não estivesse fumado com o Gustavo, o que eu teria feito? Eu teria almoçado e ido para casa. Sentado, tranquilo, faria algo. Ouviria muito rap. Agora essa noite cansada me espera. O desgaste emocional existe e é intenso. Letícia, porque você sentou ao meu lado? Patrick, você não foi enfático. Ou talvez você tenha sido. Talvez eu tenha sido. Sim, vamos lá, assumir a primeira pessoa é importante. Eu fui enfático na minha mensagem perante a ela. "Eu quero te ouvir e quero compartilhar um pouquinho de minha vida com você por que eu tenho um coração aqui dentro”. Enfatizei que eu me incomodava com a presença dela, sim. Não quis dizer isso, e não é isso. Mas é isso. Eu levo a sério as coisas que eu falo. Eu tive a oportunidade de falar: “Letícia, eu te odeio por você não ter consideração comigo. E eu sei que você tem, mas você não expressa essa porra. Eu fico com vontade de te beijar ao mesmo tempo que fico com vontade de me afastar. É assustador, mas você e o possível e inevitável beijo me atraem, hahaha.” Eu ainda fui carente e pedi para ela me manter informado. Eu sou um fracasso, letícia. EU SOU UM FRACASSO, porra. Eu só quero ser amado e poder gastar essa energia com alguém que eu me importe. Porque que eu não consigo me convencer disso? Porque que, a cada tentativa falha, há tantas voltas e voltas no mundo? Eu não sei, Letícia. Eu não sei. Esse papo não tem nada a ver com você. Você é um tesão, você é linda, você é um doce e vai encantar muito a vida de um homem broxa qualquer que vai te dar um tesão barato e uma resposta de vida convincente para essa vida medíocre. Ou não. Eu não me importo contigo, por mais que tudo que eu mais quero na vida é me importar contigo. Música não salva minha alma, os males existem mesmo que eu cante. Os males não se vão quando eu canto. Quando eu crio, talvez essas porras se vão. Eu não sei, letícia. Aqui jaz um liricista. Assumir a morte é importante, mas o suicídio lento é desesperador. Eu não estou pronto para assumir o suicídio lento não, cara, nem menos minha mediocridade. Eu acredito em mim mesmo e no meu potencial. Mesmo dentro da minha bolha e no meu isolamento, EU ACREDITO EM MIM MESMO, porra. É isso, Letícia... Porque você veio se sentar ao meu lado? Porque você tem um coração e é um amor, sua filha da puta. Eu queria ter retribuído o beijo. Eu queria demonstrar intimidade, conforto e tesão. Não, só conforto e intimidade. Tesão eu queria ter demonstrado antes (e eu não demonstrei da minha forma melancólica/melódica?). Mas de boa, com o tesão que eu demonstrei. Tu nunca mereceu mais do que isso. Eu só não quero nunca mais fumar payol. Eu só não quero nunca mais deitar sozinho nessa cama. Eu só quero ter a porra do meu cachê todo fim de mês e ser o branquinho gente boa. Eu só quero ser um martir calado, no futuro. Sobreviver por todas essas merdas e lançar minha poesia em algum momento. Minha poesia vai mudar o mundo, seus filhos da puta. Ser um rebelde sem causa nunca me possibilitará mudança e revanche, eu sei. Mas deve ter um método. A arte gritará. Ela está exalando do meu corpo. LUIZA, eu quero fazer arte com você. Se você render um poema que for, já está bom. E eu quero um poema de cada tema. Sim, poesia erótica. Sim, âncora emocional. Você pode ser tema de todos esses se eu não tivesse te cutucado. Éh, não será você. Mas ô Luiza, não tem nada de errado comigo. Eu só sou um guri procurando alguém para amar. Quem mandou você ser linda? Não é minha culpa que você atraia tipos como eu. E quem vai te convencer que eu sou um bom partido? Nem eu, nem deus. Nem eu, nem mamãe. Nem eu, nem meu trampo. Se não eu, quem pode ser?... Puta que pariu, o futuro começou e eu preciso dormir."
(P.S.: o título te dá o contexto.. digitei isso 3 semanas atrás)
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2018.06.17 11:32 jggomes14 Pré Match Thread: Brasil x Suiça (Copa Do Mundo Rússia 2018, Fase de Grupos, Primeira Rodada)

Bem amigos da rede reddit, estamos aqui com o Pré Jogo da estréia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo 2018. É o inicio da Competição pra Seleção Brasileira, estando no Grupo E, ao lado de Suíça, Costa Rica e Sérvia. Ao longo da Copa, estaremos apresentando cada adversário e seus destaques, além de obviamente termos os tópicos de discussão durante e depois da partida.
Analise do Adversário:
Na estréia da Copa, enfrentaremos a Suíça. Um time conhecido por ser extremamente defensivo, até passando uma Copa do Mundo inteira sem sofrer gols, não vai ser tarefa facil pros comandados de Tite.
Tite afirmou que "ficou sem dormir" depois de enfrentar a Inglaterra no ano passado, pelo fato do sistema defensivo Inglês ter sido totalmente efetivo em neutralizar os ataques da Seleção Brasileira no amistoso, fazendo nosso treinador buscar alternativas para jogar contra equipes que jogam no mesmo modelo, que é o caso da Suiça.
A Suiça provavelmente irá alinhar com Sommer; Lichtsteiner, Schaer, Akanji, Rodriguez; Behrami, Xhaka; Shaqiri, Dzemaili, Embolo; Seferovic.
Granit Xhaka é o jogador a se mencionar na Suíça. O Meiocampista é o cérebro da equipe, capaz de controlar o jogo e abrir a defesa com seus passes e finalizações de fora da área. Embora venha de uma temporada de altos e baixos no Arsenal, sempre é capaz de encontrar um espaço no campo, temos que tomar cuidado com ele.
Seleção Brasileira:
Pra quem não acompanhou as Eliminatórias, parece ser totalmente absurdo que existam pessoas que ainda acreditam na Seleção Brasileira depois do vexame da Copa de 2014. Bom, vocês perderam muito, mas chegaram a tempo pra ver o grande show, a Seleção se classificou em primeiro lugar com uma campanha absurda, perdendo somente um jogo, terminando com 41 pontos nas Eliminatórias, que é a maior pontuação da história da Seleção, e jogando um futebol envolvente e agradavel de se ver, tudo isso devido a um homem.
GLÓRIA E LOUVOR AO SENHOR ADENOR. Adenor Leonardo Bacchi, mais conhecido como Tite, é o responsavel pela revitalização da Seleção Brasileira. Com sua filosofia de jogo focada em Jogo Apoiado (Podem ter certeza que vocês vão ouvir o Galvão falando isso durante o jogo) e progressão com a posse da bola, Tite faz o Brasil pintar e bordar a cada vez que a Seleção entra em campo.
A Seleção Brasileira entrará em campo com: Alisson, Danilo, Thiago Silva, Miranda, Marcelo; Casemiro, Paulinho, Coutinho, Neymar, Willian; Gabriel Jesus.
Fique ligado em:
Neymar: O camisa 10 da Seleção retornou de uma lesão que o deixou fora dos gramados por três meses, e voltou em alta voltagem, marcando dois gols nos amistosos preparatórios pra Copa do Mundo, Neymar igualou Romário na lista de maiores artilheiros da seleção e agora ocupa o terceiro lugar, juntamente com o Baixinho, atrás somente de Ronaldo e Pelé. É dele que se espera a magia, é dele que se espera tudo, ele sabe o peso que tem nas costas, será que chegou a hora do Neymar se firmar entre Messi e Cristiano Ronaldo?
Coutinho: O jogador do Barcelona é um dos melhores jogadores do planeta, além de ser uma das armas pra furar o bloqueio Suiço com seus chutes de fora da área, dribles desconcertantes e visão de jogo acima da média, dividindo o estrelato da Seleção com Neymar.
Danilo: Convocado após a lesão de Daniel Alves, Danilo aproveitou a ausência de competição nos amistosos pra agarrar a vaga na lateral direita e não soltar mais. Diferente de Daniel Alves, Danilo é um jogador mais defensivo, embora tenha qualidade suficiente pra apoiar o ataque quando necessário, não chega aos pés do lateral direito do PSG, mas pode ser importante em dar equilibrio a equipe e liberdade a Marcelo e Willian.
Ficha Técnica:
Brasil x Suiça
Horário: 15h00 de Brasilia.
Local: Rostov Arena, Rostov-on-don, Russia.
Transmissão: TV Globo (com Galvão Bueno; comentários de Casagrande, Ronaldo e Arnaldo Cézar Coelho) e SporTV (com Milton Leite, Lédio Carmona e Mauricio Noriega)
Provaveis escalações:
Brasil: Alisson, Danilo, Thiago Silva, Miranda e Marcelo; Casemiro; Paulinho, Philippe Coutinho, Willian e Neymar; Gabriel Jesus.
Suíça: Sommer; Lichtsteiner, Schaer, Akanji, Rodriguez; Behrami, Xhaka; Shaqiri, Dzemaili, Embolo; Seferovic.
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2017.11.10 21:16 aureliano_babilonia_ Crônica de um suicídio - reportagem da Veja relata espetacularização em operação da PF na UFSC

Link para a matéria original (restrita para assinantes).
Paywall de cu é rola: Crônica de um suicídio
Na noite do domingo 1º de outubro, um antigo cliente do Macarronada Italiana, de onde se avista a deslumbrante Baía Norte de Florianópolis, entrou no restaurante à procura de Zé. O garçom José de Andrade, de 63 anos, irrompeu no salão e aproximou-se para registrar em seu bloquinho o pedido de sempre do freguês de quase quatro décadas: talharim à bolonhesa.
— Não, Zé, hoje só vim te ver e tomar um café contigo. O garçom percebeu um timbre diferente e retrucou:
— Te conheço, Cau. Você está bem?
Cau não estava bem, mas desconversou. Reclinou sua vasta figura de 1,90 metro e 85 quilos sobre o balcão e tomou um expresso em companhia de Zé, que percebeu outra estranheza: o silêncio incomum e prolongado do interlocutor. Dez minutos depois, Cau deu-lhe um abraço apertado, um beijo na bochecha esquerda e disse “adeus”.
Dali, Cau foi ao Shopping Beiramar, uma caixa de concreto de sete andares, subiu até o último piso e andou em torno das escadas rolantes mirando lá embaixo, como quem calcula o território. Caminhou duas, três, cinco vezes ao todo. E decidiu ir ao cinema. Assistiu a Feito na América, o mais recente filme de Tom Cruise, e voltou para casa. No dia seguinte, na última manhã de sua vida, Cau deixou seu apartamento, no bairro de Trindade, e pegou um táxi. No meio do caminho, talvez à espera de que o shopping abrisse as portas, às 10 horas, encerrou a corrida na Praça dos Namorados, onde costumava levar o filho quando pequeno. Sentou-se num banco. Uma conhecida o cumprimentou, ele perguntou as horas. Eram 9h20. Quando o shopping abriu, Cau não demorou a chegar. Cruzou com um estudante universitário, a quem saudou protocolarmente, e tomou o elevador até o 7º andar. As câmeras de segurança do shopping captaram o momento em que Cau, sem nenhuma hesitação, se postou na escada rolante, colocou as mãos no corrimão de borracha, em seguida subiu ali com os dois pés — e jogou-se no vão da escada, projetando-se no precipício. Despencou de uma altura de 37 metros, a uma velocidade de 97 quilômetros por hora. Seu corpo bateu no chão como se tivesse 458 quilos. Ele morreu na hora, às 10h38 de 2 de outubro de 2017.
O suicídio de Luiz Carlos Cancellier de Olivo, aos 59 anos, o Cau, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi o desfecho trágico de dezoito dias dramáticos. Sua vida começou a desabar na manhã de 14 de setembro, quando agentes da Polícia Federal deflagraram a Operação Ouvidos Moucos, com o objetivo de apurar desvios de verbas para cursos de ensino a distância na UFSC. Às 6h30 daquela quinta-feira, o reitor ouviu tocar a campainha de seu apartamento e, enrolado em uma toalha de banho, abriu a porta para três agentes da PF, que subiram sem se fazer anunciar pelo porteiro do edifício. Os agentes traziam dois mandados — um de prisão temporária e o outro de busca e apreensão. Recolheram o tablet e o celular do reitor e conduziram-no à sede da Polícia Federal em Florianópolis, dentro de uma viatura.
Atônito, sem entender o que estava acontecendo, o reitor só se lembrou de chamar um advogado quando estava prestes a começar seu depoimento, às 8h30. Durante as cinco horas em que foi arguido, passou duas sem saber por que estava à beira da prisão. Ainda respondia a perguntas sobre os meandros operacionais do ensino a distância, com o estômago embrulhado pelo jejum matinal e pelo tormento das circunstâncias, quando a delegada Érika Mialik Marena, ex-coordenadora da força-tarefa da Lava-Jato, à frente agora da Ouvidos Moucos, adentrou o local. Apressada para iniciar a coletiva de imprensa que começaria logo mais, Érika finalmente esclareceu ao interrogado o motivo de tudo aquilo: “O senhor não está sendo investigado pelos desvios, mas por obstrução das apurações”. E correu para comandar o microfone na sala ao lado.
Desde cedo, já voava nas redes sociais a notícia de que a Polícia Federal deflagrara uma operação de combate a uma roubalheira milionária na UFSC. A página oficial da PF no Facebook, seguida por 2,6 milhões de pessoas, destacava a Ouvidos Moucos: “Combate de desvio de mais de 80 milhões de reais de recursos para a educação a distância”. Ainda acrescentava duas hashtags para celebrar a ação: “#euconfionapf” e “#issoaquiépf”. A euforia não encontrava eco nos fatos. Na coletiva, a delegada Érika explicou que, na realidade, não havia desvio de 80 milhões de reais. O valor referia-se ao total dos repasses do governo federal ao programa de ensino a distância da UFSC ao longo de uma década, de 2005 e 2015, mas não soube dizer de quanto era, afinal, o montante do desvio. Como a PF não se deu ao trabalho — até hoje — de corrigir a cifra na sua página do Facebook, os 80 milhões colaram na biografia do reitor. Em seu velório, uma aluna socou o caixão e bradou: “Cadê os 80 milhões?”.
Encerrado seu depoimento, o reitor deveria ficar retido na sede da PF, mas, como a carceragem havia sido desativada, foi para a Penitenciária de Florianópolis, um complexo de quatro pavilhões construído em 1930. Acorrentaram seus pés, algemaram suas mãos e, posto nu, ele foi submetido a revista íntima. Um dos agentes ironizou: “Viu, gente, também prendemos professores!”. Cancellier vestiu o uniforme laranja, foi fichado e passou a noite em claro. Seus dois colegas de cela, presos na mesma operação, choravam copiosamente. Cancellier estava mudo, como que em transe, e cada vez mais sobressaltado com os rigores do cárcere.
Ficou trinta horas na cela na ala de segurança máxima. Teve sintomas de taquicardia: suava muito e a pressão disparou para 17 por 8. Seu cardiologista foi autorizado a examiná-lo, trazendo os remédios que ele havia deixado em casa (desde dezembro, quando implantou dois stents, Cau tomava oito medicamentos). Quando deixou a cela, Cancellier era um homem marcado a ferro pela humilhação da prisão. Sua família o recebeu em clima de festa e alívio. Os irmãos, Julio e Acioli, tinham comprado de tudo um pouco no Macarronada Italiana para um jantar regado a vinho branco Canciller, rótulo argentino escolhido pela similaridade com o nome de origem italiana da família. Também ali estava o filho do reitor, Mikhail, de 30 anos, doutor em direito como o pai, com quem ele mantinha um laço inquebrantável. Mas, entre piadas e risos, Cancellier exibia um semblante sem expressão. “Ele estava chocado. Revivia aquelas cenas o tempo todo”, lembra o irmão Julio, jornalista de 51 anos. Mais que tudo, o reitor estava sendo esmagado pelo peso da proibição de pisar na universidade até o final das investigações. A decisão fora tomada junto com o mandado de prisão e, para o reitor, soou como uma punição cruel.
Depois de ter visto seu nome nas manchetes do noticiário na internet e na TV, Cancellier deu boa-noite a todos e recolheu-se. Não era um homem aliviado pelo fim do martírio da prisão nem reconfortado pelo reencontro com a liberdade. Deixou o jantar como um derrotado. Um dos convivas, o desembargador Lédio Rosa de Andrade, de 58 anos, amigo da infância pobre passada em Tubarão, a 130 quilômetros de Florianópolis, percebeu o peso que o reitor carregava. “Ele entendeu que o episódio deixaria uma marca incontornável em sua biografia”, diz Andrade, colega de colégio de Cancellier.
A UFSC era uma extensão da casa do reitor. Seu apartamento, de três cômodos, onde viveu dezenove anos, dois deles casado e o restante na companhia do filho, fica a 230 passos do câmpus. Nos fins de semana, o reitor fazia uma ronda informal, bem à vontade em seu moletom. Na UFSC, ele teve, para os padrões acadêmicos, uma carreira meteórica. Em apenas dezoito anos, concluiu o curso de direito, fez mestrado, fez doutorado em direito administrativo, virou diretor do Centro de Ciências Jurídicas e, numa eleição acirrada, elegeu-se reitor — cargo que ocuparia por dezesseis meses. Na eleição, a paciência para tecer alianças foi arma decisiva em um jogo embaralhado. “Ele não era um orador brilhante, mas era um articulador que conseguia trazer para o mesmo lado gente de todos os espectros ideológicos”, define o amigo Nelson Wedekin, de 73 anos, ex-senador pelo PMDB local.
Desde a juventude, a rotina universitária era a bússola da vida de Cancellier. Em 1977, aos 19 anos, época em que fazia política estudantil com o cabelo desgrenhado e bolsa de couro a tiracolo, ele se encantou com a universidade. “Não quero nunca sair daqui”, confessou ao amigo Osvaldir Ramos, hoje presidente do Conselho Estadual de Educação em Santa Catarina. Acabou forçado a sair, no regime militar, em decorrência de sua militância no Partido Comunista Brasileiro, o antigo Partidão, e da chamada novembrada: em 30 de novembro de 1979, o presidente João Figueiredo, o último ditador do ciclo militar, baixou em Florianópolis, bateu boca com estudantes na rua e o episódio terminou em pancadaria e prisões. Cancellier teve de desaparecer da faculdade de direito. Ressurgiu cinco meses depois trabalhando em um jornal e acabou tornando-se assessor de políticos, inclusive de Wedekin, função que o levou a se mudar para Brasília. Só voltou à UFSC em 2000, aos 42 anos, para cumprir uma fulminante trajetória acadêmica — e ser de novo expelido da universidade, agora em plena democracia e na condição de reitor, num banimento que lhe pesou como uma suprema humilhação. No muro da universidade, um anônimo grafitou: “Fora Cancellier”.
“A humilhação é a bomba nuclear das emoções”, afirma a psicóloga alemã Evelin Lindner, uma autoridade mundial num ramo da psicologia que estuda o peso da vexação em sociedade e sua relação com atos de violência — como o terrorismo e o suicídio, que, não por acaso, andam juntos. Se a culpa é uma dor que vem de dentro, a humilhação é como uma dor que vem de fora, imposta pelo olhar alheio. É sentida como uma falência em público. Sai cortando fundo no orgulho, na honra, na dignidade, e tende a ficar marcada como uma cicatriz. Escreve o psiquiatra Neel Burton, professor em Oxford e autor do livro Heaven and Hell: The Psychology of the Emotions (Céu e Inferno: a Psicologia das Emoções): “As pessoas que foram humilhadas carregam a marca da humilhação, são lembradas pela humilhação. Em um sentido muito real, elas se tornam a própria humilhação que sofreram”.
Os estudos científicos sugerem que, quando estão em jogo elementos que constituem a razão de ser de uma pessoa, como princípios, posição ou status, o peso da vergonha pode até desfigurar a identidade pessoal e tornar-se insuportável. “Em alguns casos, ser submetido a uma situação vexaminosa gera condutas irracionais e pode desencadear uma resposta violenta, como o suicídio”, diz o professor Helio Deliberador, do departamento de psicologia social da PUC de São Paulo. O filho mais velho de Bernard Madoff, um dos nomes mais cintilantes de Wall Street, suicidou-se depois da descoberta de que seu pai era, na verdade, um farsante que aplicara golpes bilionários. Jacintha Saldanha, enfermeira em um hospital onde a duquesa Kate esteve internada em 2012, caiu no trote de radialistas australianos que se fizeram passar pela rainha da Inglaterra, facilitou o acesso a dados sobre o estado de saúde da duquesa e foi publicamente achincalhada. Matou-se aos 46 anos. Como escreveu Albert Camus em Mito de Sísifo: Ensaio sobre o Absurdo: “Matar-se, em certo sentido, é confessar que se é ultrapassado pela vida e que não a compreendemos”.
Nos dias que se seguiram à sua soltura, Cancellier começou a ser ultrapassado pela vida. “Passou a alternar momentos em que achava que ficaria tudo bem com outros em que mergulhava no desânimo”, diz o ex-senador Wedekin. Em 16 de setembro, dois dias depois da prisão, seu irmão Acioli levou-o para falar com advogados. Ao entrar e sair do táxi, Cancellier tremia, com medo de ser reconhecido na rua e hostilizado. Com o celular confiscado pela PF, quase não atendia o telefone fixo de casa. Não ligava a TV e, ao irmão Julio, disse que cometera “suicídio digital”, pois retirara fotos do Facebook e parara de navegar nas redes sociais. Ensimesmou-se a tal ponto que os irmãos decidiram levá-lo a uma psiquiatra, a primeira vez na vida que buscava ajuda dessa natureza.
A consulta com a médica Amanda Rufino ocorreu em 19 de setembro, cinco dias depois da prisão. Ele saiu de lá com o diagnóstico de “sintomas de stress pós-traumático desencadeados por impactante fator estressor no âmbito profissional” e um quadro de “intensa sensação de angústia, de opressão no peito e taquicardia”. A psiquiatra prescreveu um ansiolítico e um antidepressivo, ambos em doses moderadas. Cancellier tomou obedientemente os remédios e voltou à médica em 29 de setembro, a três dias do suicídio. Ao final da segunda consulta, a psiquiatra comentou com um dos irmãos do reitor que a situação parecia sob controle. “O quadro está evoluindo bem”, disse. A João dos Passos, procurador-geral do estado, o reitor deu uma pista do que sentia: “Vou te confidenciar, João. Meu estado é de pós-catástrofe, como se eu fosse o sobrevivente de uma queda de avião. Não consigo me situar, raciocinar direito”. O amigo Lédio Andrade, com quem o reitor jogava xadrez, descreve um Cancellier irreconhecível: “Seu raciocínio ficou lento e os olhos fixavam o infinito. Não parecia o Cau”.
Em situações normais, o reitor tinha entusiasmadas conversas sobre Shakespeare, Freud e o cristianismo, temas que despertavam sua curiosidade intelectual. Agora, nada parecia atrair seu interesse. O irmão Acioli, engenheiro que mora em São José dos Campos, tentando tirá-lo da clausura de si mesmo, alugou um Fiat Uno e provocou: “Agora você vai me mostrar essa ilha”. Era sempre o irmão ao volante, pois Cancellier, apesar de ter carteira de motorista, só dirigia moto. Nesses passeios, o reitor até relaxava, mas logo voltava a cerrar-se em casa. Em Foz do Iguaçu, sua ex-mulher, Cristiana Jacquenin, de 48 anos, externou seu temor aos mais chegados: “Tenho medo do que ele possa fazer. Ele não vai aguentar ficar longe da universidade, é a vida dele”. Crica, como Cancelllier a chamava, foi uma paixão fulminante — em dois meses, eles subiram ao altar, ele com 28 anos, ela com 18. Conheceram-se no jornal O Estado (que já não existe) e, apesar da separação, mantiveram um elo até o fim. Ela afirma: “Aquela humilhação toda atingiu o Cau. Era como se alguém acertasse com uma bazuca uma escultura de pecinhas bem encaixadas que nunca mais se rearranjariam”.
A Polícia Federal pediu a prisão de Cancellier e outras seis pessoas da UFSC com base em um relatório de 126 páginas. Nele, o reitor é acusado de tentar obstruir as investigações da universidade sobre os desvios de dinheiro com base em apenas dois depoimentos. Em um deles, Taisa Dias, coordenadora do curso de administração, contou à polícia que, certo dia, levou ao reitor suspeitas de uso indevido de verbas no curso que coordena. Cancellier, segundo ela, perguntou se aquilo não seria um “problema de gestão” e, em seguida, lhe disse o seguinte: “Guarda essa pastinha”. Taisa entendeu que, com essa frase, o reitor estava querendo enterrar as investigações. A Polícia Federal, por sua vez, considerou a interpretação de Taisa como uma suspeita suficientemente clara de que Cancellier queria embolar a apuração. A defesa do reitor admite a conversa com Taisa, mas afirma que, ao dizer “guarda essa pastinha”, ele queria lhe pedir apenas cautela nas apurações e nas acusações. Ao reitor, nada foi perguntado sobre suas intenções, antes de ele ser preso.
O outro depoimento foi prestado pelo corregedor da UFSC, Rodolfo Hickel do Prado, um senhor calvo de olhos claros que nunca altera o tom de voz e fez fama de investigador obsessivo no câmpus da universidade. Em novembro do ano passado, o centro acadêmico da faculdade de engenharia postou no Facebook um texto que dizia que a universidade mantinha uma lógica desigual, punitiva para alunos e benevolente para professores. Hickel do Prado debruçou-se sobre a questão. Queria entender o que era aquela lógica desigual. Convocou nada menos do que uma centena de estudantes para depor. A apuração se encerrou sem nada concluir, mas ajudou a sublinhar sua fúria investigativa. Aos que lhe censuram o ímpeto de xerife, Hickel do Prado rebate com segurança pétrea: “Quem faz tudo certo não tem por que ter medo de nada”. (Na terça-feira 7, o corregedor pediu licença médica de dois meses da universidade.)
Em seu depoimento, Hickel do Prado fez cinco acusações ao reitor. Disse que ele lhe recomendou que instalasse uma sindicância, em vez de abrir um processo administrativo, e tentou subordiná-lo a uma secretaria ligada à reitoria. (A defesa do reitor confirma as duas providências, mas diz que eram uma tentativa de evitar os conhecidos excessos do corregedor, e não de sabotar a investigação.) Também afirmou que ele cortou sua remuneração numa “tentativa de constrangê-lo”. (A defesa do reitor afirma que houve uma ampla reforma na UFSC com cortes na remuneração de vários cargos comissionados, e não uma medida exclusiva contra o corregedor.) Ainda acusou o reitor de tê-lo chamado para uma conversa reservada na qual lhe pediu que não apurasse as suspeitas. (A defesa do reitor nega que a conversa tenha existido.) E, por fim, disse que ele lhe pediu para ter acesso formal às investigações depois de ter visitado a Capes, órgão federal que financia o sistema de pós-¬graduação no Brasil, que havia acabado de cortar as verbas para o programa de educação a distância da UFSC. (A defesa do reitor confirma que ele pediu acesso às investigações exatamente para saber as razões que levaram a Capes a cortar as verbas.)
A polícia não ouviu as explicações do reitor, antes de pedir sua prisão. Ainda que os dois depoimentos se limitassem a acusá-lo de tentar obstruir as investigações, a polícia incluiu o nome do reitor em uma lista de doze pessoas suspeitas de terem tido “efetiva participação na implementação, controle e benefício do esquema criminoso”. Não há no inquérito nenhum indício ou acusação de que o reitor fosse membro do “esquema criminoso”, nem mesmo a descrição do que poderia vir a ser esse “esquema criminoso”. VEJA perguntou à Polícia Federal por que Cancellier foi apontado como integrante da quadrilha, mas a PF preferiu não responder.
No final do relatório, na página 123, estão as cinco razões para prender o reitor. O texto afirma que ele:
• “Criou a Secretaria de Educação a Distância para estar acima do já existente Núcleo Universidade Aberta, vinculando-a diretamente à reitoria.” (O inquérito não traz nenhuma prova de que a criação da secretaria tenha relação com desvios de verba.)
• “Nomeou no âmbito do EaD (educação a distância) os professores do grupo que mantiveram a política de desvios e direcionamento nos pagamentos das bolsas do EaD.” (O reitor, ao assumir o cargo, fez mais de cinquenta nomeações. No âmbito do EaD, fez apenas três, e outros três professores que já integravam o grupo antes mesmo de sua gestão foram mantidos.)
• “Procurou obstaculizar as tentativas internas sobre as irregularidades na gestão de recursos do EaD.” (O inquérito, neste caso, baseia-se no depoimento da coordenadora Taisa Dias e do corregedor Hickel do Prado.)
• “Pressionou para a saída da professora Taisa Dias do cargo de coordenadora do EaD do curso de administração.” (É uma afirmação gratuita. O inquérito não informa de onde saiu essa suspeita nem aponta nenhum elemento que lhe dê consistência.)
• “Recebeu bolsa do EaD via Capes e via Fapeu.” (O inquérito também não informa de onde saiu essa suspeita, nem mesmo se existiu alguma irregularidade na concessão das bolsas.)
A juíza Janaína Cassol, da 1ª Vara Federal de Florianópolis, analisou o pedido da PF em 25 de agosto e concedeu as prisões. Sobre o reitor e os outros seis acusados, ela escreveu: “Essas pessoas podem efetivamente interferir na coleta das provas, combinar versões e, mais do que já fizeram, intimidar os docentes vitimados pelo grupo criminoso”. Em 12 de setembro, a juíza pediu licença por problemas de saúde e foi substituída por Marjorie Freiberger. Dois dias depois, em 14 de setembro, a polícia lançou a Operação Ouvidos Moucos e prendeu o reitor e os outros seis. No dia seguinte às prisões, a juíza Marjorie Freiberger, sem que houvesse recurso da defesa do reitor e dos outros seis, resolveu revogar a decisão de sua colega e suspendeu as prisões. Ao contrário da antecessora, a juíza Marjorie não conseguiu ver motivo para tê-los levado para a penitenciária. Escreveu ela: “No presente caso, a delegada da Polícia Federal (refere-se a Érika Marena) não apresentou fatos específicos dos quais se possa defluir a existência de ameaça à investigação e futuras inquirições”. Mandou libertar todo mundo. Até hoje, a advogada do reitor, Nívea Cademartori, não entende por que seu cliente foi preso sem que tivesse a chance de se explicar. “Bastaria que a PF intimasse o reitor para depor, o que seria imediatamente atendido. Há uma banalização das prisões temporárias no país.”
Em seus últimos dias, Cancellier chegou a dar sinais de que não abandonaria o ringue. Em artigo publicado no jornal O Globo em 28 de setembro, quatro dias antes do suicídio, saiu em defesa própria e dos demais professores presos: “A humilhação e o vexame a que fomos submetidos há uma semana não têm precedentes na história da instituição”. O reitor também tentou recorrer da proibição de pisar no câmpus. Alegou que, como orientava teses de mestrado e doutorado, não podia deixar os alunos à deriva. A resposta da Justiça veio no sábado 30 de setembro, dois dias antes do suicídio: Cancellier estava autorizado a entrar na UFSC por três horas em um único dia. A decisão o devastou. “Como pode?”, perguntava. “Se demorar um minuto a mais, serei preso?”
A humilhação a conta-gotas ajudou a reforçar o quadro de stress pós-traumático do reitor, como a psiquiatria define a reação descontrolada do cérebro diante de um evento que está além de sua capacidade de absorção. “É como se o sistema de defesa do organismo entrasse em pane”, compara o psiquiatra Marcelo Fleck, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Maria Oquendo, uma porto-riquenha baixinha que se tornou um gigante da psiquiatria americana e autoridade mundial em suicídio, diz que é dificílimo evitar a morte de vítimas desse tipo de stress. Elas nunca falam em suicídio, embora pensem no assunto constantemente. Um trauma como o que consumiu o reitor vira motivo de obsessão — mas, de acordo com as estatísticas, raramente conduz ao atentado à própria vida.
O reitor foi um dos raros casos. Na véspera de seu suicídio, sabe-se hoje, já estava tudo calculado. Ele recusou o convite dos irmãos para assistir a uma partida de futebol em que o clube de coração da família, o Hercílio Luz, tinha chance de voltar à elite catarinense. Preferiu sair com o filho Mikhail. Almoçaram, ele quis ver se estava tudo em ordem em sua casa, mas recusou-se a ficar para uma sessão de filmes na TV. “Preciso descansar”, despistou. Em vez de descansar, foi ao shopping em que morreria, assistiu a um filme e levou consigo a chave do apartamento, de modo a forçar seu irmão Acioli a dormir em outro lugar. Queria ficar sozinho na última noite. As cinzas de cigarro espalhadas pelo apartamento mostram que fumou ferozmente, quebrando a abstinência imposta pelo cardiologista. Escreveu quatro bilhetes. Um para o filho, outro para os irmãos, um terceiro para um amigo e o quarto carregou no próprio bolso. É o único cujo conteúdo é conhecido. “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!”, diz o bilhete, com a ênfase dos três pontos de exclamação. No dos irmãos, referiu-se à imensidão do amor pelos dois, mas disse que a dor que o dilacerava era maior que tudo. Deixou bilhetes e documentos separados em uma pequena caixa no escritório de casa, encontrada por Mikhail. O filho disse: “O pai cumpriu a missão aqui”.
Até hoje, sabe-se apenas que o “esquema criminoso” durou principalmente de 2005 a 2015, quando Cancellier nem estava na reitoria. A Capes, que investigou o assunto, diz que o “esquema criminoso” era uma coleção de pequenas falcatruas de servidores escroques, sem a dimensão que se divulgou. O coordenador do programa do ensino a distância da Capes, Carlos Lenuzza, não revela detalhes da investigação, mas adianta: “Os valores dos desvios são muito distantes daquilo que se falou”. Até agora, um mês depois do suicídio do reitor, ninguém foi acusado formalmente de nada, e a polícia não chegou ao valor real que foi desviado. Ao ver a notícia do suicídio na TV, Zé, o garçom, desabou. Nem sabia que o amigo de toda a vida era reitor.
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2017.09.17 05:55 pedrothegrey O detetive.

Entendiado na sala de espera. Fazem quarenta minutos que estou sentado neste sofazinho marrom, esperando que me chamem. Folheio as revistas e ouço o barulho da rua, o som das buzinas irritadas e o choro das crianças, o grito das mães, do dinheiro que entra no caixa, do assaltante que foge. Os sons que por mais de 10 anos escuto todo santo dia.
— Detetive N...! — Ouço a secretária gritar.
— Aqui. — Respondo, com rispidez.
— A doutora H... pediu para que o senhor entre, a consulta vai durar apenas vinte minutos. Não se preocupe.
Faço que sim com a cabeça e entro no consultório. Era diferente do que eu imaginava, na sua mesa tinham algumas pilhas de papéis, fichas dos pacientes, algumas revistas de psicologia em francês e inglês e uma cadeira na frente da mesa. Ela era uma mulher alta e bonita, motivo pelo qual tantos policiais não se importavam em ter que fazer as seções obrigatórias. Eu me sento na cadeira, pego o maço de cigarros amassado que guardo no bolso e puxo um cigarro.
— Você não pode fumar aqui. — Ela me diz, e com muito desgosto guardo o cigarro. — Estou vendo na sua ficha, você veio aqui porquê... deixa eu ver... Ah! Agrediu um padre. O senhor confirma? Ótimo, vamos prosseguir. Esta é a primeira das sete visitas obrigatórias, vou pedir para que o senhor assine aqui. E aqui. Obrigada. Agora sente-se. O senhor poderia me contar um pouco mais sobre sua experiência?
— Sobre o padre? Vamos, doutora, está tudo na ficha. Tudo bem, tudo bem, eu falo. Tínhamos uma investigação de violência sexual de um menor na paróquia da rua 52. Recebemos alguns telefonemas anônimos detalhando certos aspectos da aliciação dos garotos, e o modus operandi deste padre em específico. Minha equipe seguiu de perto o caso, e tínhamos fortes evidências que sugeriam que o padre guardava um diário, onde ele fazia uma espécie de confessionário com ele mesmo. Pedimos um mandato ao Juiz para investigar sua casa e encontrá-lo, mas vi que ele ia rejeitar o pedido quando retirou debaixo do terno um crucifixo e o mostrou para mim.
Eu olhava pela janela que ficava ao lado da cadeira onde me sentava, e contemplava, como um espectador em imersão, as entranhas da cidade. Havia muito que eu não enxergava as vísceras dela, mas daquele consultório eu tinha uma visão privilegiada da podridão.
— Continue, por favor. — Ela disse, rabiscando seu bloco de notas.
— No fim das contas, o juiz acabou contando ao padre sobre a investigação. As provas, nesse momento, devem estar enterradas debaixo dos sete círculos do inferno. — Eu disse, cansado.
— E você foi atrás dele? Quer dizer, do padre. — Ela perguntou.
— Olha, doutora, acho que repetir tudo que está registrado na minha ficha não vai me ajudar em nada. O que você quer que eu diga? Olhe pela janela e veja. Pouse seu olhar em um ponto fixo e observe os arredores, note como o ponto vai mudar. Perceba como as pessoas vem e vão em perfeita harmonia com o ambiente, com uma sincronia ímpar entre a indiferença social e cósmica. Socar a cara daquele padre não me fez bem, tampouco ajudou as crianças ou a investigação. Fiz o que fiz pelo mais mesquinho dos desejos. Sou isso, tempestade e ímpeto. Um coração à deriva, uma garrafa de consciência largada num oceano revolto de emoções profusas e indistinguíveis. Tentar ver valor ou significado nas minhas ações vai se mostrar, como a senhora verá nas próximas seções, a mais inútil das tarefas.
Um alarme que vinha do relógio de pulso da doutora disparou.
— N..., acredito que estamos progredindo. Nossa seção está encerrada, mas o aguardo para a próxima. Você se importa de chamar o próximo? Feche a porta. Adeus. Eu saio do consultório. São 18:30h e já anoiteceu. Uma noite sem estrelas, sem o máximo atestado da indiferença do mundo. Isso me força a olhar para frente, para a rua e para as pessoas. Elas tem caras de sono, mas a doença destas é o tédio, que em um bocejo mortal, engolirá a todos nós. Da onde eu ouvi isso? Deve ter sido algum francês, talvez Baudelaire ou Flaubert, não tenho certeza. Mas soa francês, não é?
Caminho para o estacionamento, entro no carro e dou a ignição no motor. A 120 quilômetros por hora numa rodovia mal iluminada, enxergo somente a sinalização reflexiva do chão. Algum drogado sai correndo de um canto qualquer, e num instante me desvio dele, derrapando os pneus e quase capotando o carro. Com o coração acelerado, sinto a adrenalina residual no meu corpo, que agora não tem mais uso além de deixar tenso. Talvez seja esse um problema mais geral do que eu imaginei, adrenalina residual.
Meus punhos ainda doem. As crianças ainda choram. E o padre ainda faz sua confissão e se exime dos pecados. Numa espécie de autoflagelação profana, nós seguimos unidos em um mesmo destino, em uma mesma aventura pagã e sádica. Eternas peças em um tabuleiro sem divisões, de um jogo sem regras. Sem um começo ou um final, seguimos no mesmo ritmo melancólico até o final das eras. Todos nós. Eu, as crianças e o padre.
Perco minha linha de raciocínio; o bip de superaquecimento do carro havia sido acionado há alguns minutos, e somente agora, quando o carro começa a esfumaçar, reparo. Ligo para a seguradora, em vinte minutos o reboque vai chegar. Me sento no banco novamente, olhando os carros que vão e vem, em borrões retangulares à luz de postes amarelados. A maioria tem seu destino para fora do centro da cidade, correndo o mais rápido que podem em direção aos subúrbios, tentando fugir de mais um dia.
O reboque chega e eu ganho uma carona. Preencho a papelada da oficina; me dão um prazo de duas semanas para terminar de consertar o carro. Chego em casa, tão disperso que nem me lembro como. Não importa. Tiro o uniforme, o revólver do coldre. Banho. Me sento a frente da escrivaninha, tiro a munição do tambor da arma, desencaixo o tambor e a empunhadura. Limpo o revolver com delicadeza, tirando poeira e pólvora seca de cada ranhura. Respeito a arma. Melhor, eu a admiro. Ela é um símbolo, e Deus sabe que temos poucos bons símbolos hoje em dia. É muda e sincera, a face da morte, representante máxima da impotência e da ignorância humana. Eu entendo o motivo pelo qual, durante o treinamento, fomos disciplinados a amá-la como nossa mulher. Ah! Eu entendo. Eu durmo em rápida e profunda dormência...
... Estou atrasado. Visto meu uniforme e vou para o ponto de ônibus. Faz um calor opressor, o vento corre pelo meu rosto, secando-o em pinceladas secas e dolorosas. Insipiro e expiro; o som é alto e seco, um barulho de papel amassando, de cigarro queimando. O ônibus chega e libera mais uma lufada de ar quente, que sai do escapamento, em mim. Entro e me sento. O calor faz o rosto das pessoas parecer miserável às sete da manhã, e o meu não é diferente. Olho pela janela e o sol mutila a todos como o olhar de uma mulher, mas não me engano, pois nem todos sentem isto, assim como nem todos estão conscientes dos olhares das mulheres, da maré alta durante a lua cheia ou das flores do mal, que morrem em agonia, sem o amor de um poeta. De novo essa paixão francesa no meu coração, recorrente, irreal.
Alguém faz sinal. O ônibus para e entram uma mulher e duas crianças. Uma delas com cinco ou seis anos, a outra, apenas um bebê no colo de uma mulher. Uma mulher negra, magra, com um cabelo desgrenhado, porém bem cuidado. Alta e forte, ela carrega a criança como se nada pesasse, se move com graça com toda a bagagem feminina, isto é, bolsas, fraldas, mamadeiras, roupas reserva etc. Vestia um vestido colorido, predominantemente verde, e no pescoço, um crucifixo de madeira. Quando tirei os olhos dela e olhei o menino, foi que reparei quem ele era. Nunca vou esquecer do olhar que me deu, nem da forma como, logo em seguida, desviou o olhar envergonhado. O medo, o desespero, a dor nos olhos de uma criança; de todos os grandes filósofos, só o maior deles entendeu o desespero de uma criança, mas mesmo assim, Ivan Karamazov só renunciou a Deus. Que haverei eu de fazer? Eu, que já não tenho a quem fazer rebelião, pois que nunca tive religião. Não amo a vida, o viver, e portanto não me basta o destino de Werther, de Hemingway. O que é o homem sem rebelião, ou ainda, sem a quem se rebelar? Nada mais que um inseto. E esse pensamento sempre foi tão natural, tão profundo no meu ser, que me espanta só agora ter me tornado consciente dele.
Em pouco tempo, cinco horas se passaram. Estou almoçando sozinho, em um restaurante barato, vendo o noticiário sensacionalista do horário dos insetos. O trabalho não me deixa em paz nem quando como. Saio de lá de estômago vazio, pago minha conta e me ponho a andar. Em alguns instantes já será hora da consulta.
— Assine aqui... e aqui. — Disse a doutora. — Sente-se, por favor, fique à vontade. — Nos sentamos e nos encaramos por alguns segundos.
— Posso quebrar o gelo?
— Com certeza.
— Você quer tomar um café comigo depois da sessão?
— O quê?
— Vai ser interessante.
— Isso é inapropriado, senhor N...!
— Ah! Tudo bem. Bom... é...
— O senhor pode começar me falando como se sentiu depois da sessão anterior.
— Eu comecei a fumar mais.
— Tem vontade de parar?
— Nenhuma.
— O senhor deveria ten...
— Você pode me receitar algum remédio para dormir? — A interrompi.
— O senhor está tendo problemas para dormir?
— Não. Durmo o sono das crianças. Só que são as dessa cidade.
— Ri, e percebi que ela se assustou com o comentário.
— Não existe razão para que eu receite esse tipo de remédio então, não é?
— E o que você pode me receitar?
— Qual o seu problema?
— Achei que você pudesse me dizer.
— Sou a mediadora, senhor N...
— Ah! Entendo. Posso ir embora?
— A corporação o obriga a fazer as seções.
— Eles sabem ser persuasivos. Eu não tenho nada para falar hoje. E como eu disse, tudo que faço é ímpeto. A senhora não vai achar nenhum material de estudo nos meus problemas.
— Meu objetivo não é esse. Quero somente te ajudar.
— A senhora pode reverter uma decisão judicial?
— Não, não posso.
— Então a senhora não pode me ajudar.
Passados cinco minutos de silencio, eu olhava para o teto e para a janela do consultório. Da rua, via-se um bar. Nele, rapazes sem camisa, com bermuda e boné. Carros de som estacionados na rua reverberam música em volumes altíssimos. Os gritos e os risos raramente eram distinguidos do som alto, mas se faziam ouvir no meio do barulho. Do outro lado da rua, saído de algum beco inominável, um homem branco, pálido, magro, seco e encurvado, atravessa a rua. Sua camisa, rasgada pela metade, expunha sua costela que se sobressaía da pele. E o cheiro e a dor da miséria eram transmitidos no olhar. Seus braços estavam cobertos de feridas, o sangue denso, coagulado, estava preso na pele, acobertando parte das manchas de infecção que seu corpo colecionava. Ele tremia as mãos e na direita exibia um caco de vidro. Ele se aproximou do bar convulsivamente, tremendo todas as partes do corpo. Um homem sem controle. Aquilo já não era mais um homem, não era... Ah! Os insetos! Sempre me perseguem. Absorto em meu pensamento narcisista, só me dou conta do problema depois que o som dos carros é interrompido. Os rapazes expulsam o ser à socos e chutes. Como ele não rachou ou quebrou é impressionante, devo dizer. Olho para a doutora e aponto, com o olhar, para a rua.
— Só assine aqui antes de ir. — Ela disse.
Saio depressa do consultório, chego na calçada e avanço para o bar. Perguntas rotineiras. Sigo o caminho que disseram que o inseto havia percorrido, e faço eu o mesmo caminho. Procurando; Ouroboros. Perco rapidamente a corrida, os labirintos do centro se estendem além da compreensão humana, e paro no meio da rua, ofegante. O silêncio me oprime. Olho no celular; 18:13. A noite começa a chegar, aumentando o sibilo do vento e diminuindo a temperatura. Eu só tenho que seguir na mesma direção que ele pode ter ido, me embrenhar mais profundamente nas ruas apagadas, passar por entre as praças, com seus bancos e brinquedos quebrados. Eu tenho que continuar a seguí-lo. Eu quero continuar. Uma raiva irracional começa a brotar de mim, e a abraço como ela vem.
Subitamente, um grito. Agudo, desesperado, forte e vigoroso. Deus! Eu demorei demais. Sigo o grito, "SAI DAQUI! MEU DEUS, AJUDA!", viro uma, duas, três ruas e o grito cessa. Debaixo da luz do poste, embaixo de um céu sem estrelas, jaz um corpo que sangra. Eu saco o revólver e sigo com cautela, olho em todas as direções e me aproximo do corpo. Coloco meus dedos indicador e médio no seu pescoço; sem pulso. Viro o corpo e a luz amarelada e inconstante do poste revela uma mulher negra, bonita. Com um vestido verde manchado de sangue, rasgado no peito e na barriga. O sangue escorre delicadamente do seu corpo, criando um padrão singular no chão, onde uma pequena poça se forma, e em um ou dois segundos, o sangue caminha devagar para o esgoto. O crucifixo que ela usava mais cedo havia sumido. A melancolia não me atinge, a adrenalina permanece comigo, olho atento em todas as direções e... Ela não carregava um bebê mais cedo?
Aperto a empunhadura do revolver com força, estendo meus braços e tento mirar para frente. Minhas mãos tremem; um homem sem controle. Não posso me desesperar agora, não, não agora! Ouço um barulho pouco mais alto que meus pensamentos, uma lata de alumínio cai no chão. Achei. Sigo o som devagar, com passos determinados. Uma esquina; me viro rapidamente, engatilhando o revolver. Da sombra sai o inseto. Trêmulo e vacilante. Cadê o bebê? Cadê o bebê? Olho para os lados mas é só escuridão.
— Você pegou o bebê!? — Gritei. — Responde, caralho!
O inseto grunhiu baixinho, como se coçasse a garganta. As mãos trêmulas sobem e sobem, até chegarem na sua boca. Ele a cobre com uma das mão, e a outra o acaricia, como se tivesse vida própria, independente. Ele ri, uma risada abjeta e irreal, que não exprimia felicidade, nem dor, nem qualquer sentimento humano. Era um som, que me convém chamar de riso, pela semelhança auditiva. Em um borrão, num movimento cego, aperto o gatilho. O martelo cai e cria a faísca... Silêncio. Depois de tanto limpar o revolver ele falha agora, é como se a lua afetasse as armas como ela afeta as mulheres. Segurei o revolver pelo cano e tambor, com a outra mão segurei o cabelo da criatura. O barulho seco da madeira batendo no crânio dele ecoava no beco escuro. A empunhadura estava manchada de sangue, e não sei diferenciar meu sangue do dele na minha mão.
— O que 'cês tão' fazendo aí, porra? — Gritou uma voz, vinda da janela do apartamento do lado do beco.
Isso! A luz do apartamento. Eu olho para frente, e do lado de uma montanha de sacos de lixo, encontro o bebê, e o pedaço de vidro que o inseto carregava mais cedo estava fincado no seu pequeno pescoço. A luz se vai, o homem vê minha arma e o corpo no chão e se assusta. Se esconde na sua casa. Ele vai ligar para polícia, nem preciso me incomodar. Pego meu celular, mas a tela trava com o sangue e o suor, desisto. Me sento na calçada junto da mulher, embaixo da luz do poste. A poça de sangue chegou no bueiro, e meu coração ainda corre acelerado; adrenalina residual. Depois disso ainda tenho que pegar um ônibus para casa, será que eu vou encontrar o menino? Não, claro que não, ele vai para a delegacia... Espero que eu não tenha que dar a notícia para o garoto.
O barulho das sirenes fica mais e mais alto. Os carros estacionam.
— Senhor N..., você 'tá' bem? 'Tá' machucado? — Me perguntou um dos cabos.
— Não. Só não quero que o D... me coloque pra falar com o garoto.
— Que garoto?
— O garoto, porra. O filho dela. — Apontei para o corpo da mulher.
— Vou pedir 'pro' S... te levar, ok? Deixa que a gente cuida do resto.
Fui colocado na viatura e levado para a delegacia. Da janela, eu via os borrões dos carros, indo e vindo. Na minha mente falavam uma multidão, uma pluralidade de vozes, gritos e sons ininteligíveis. Uma pena, não ouvi o barulho do motor velho da viatura, o zunido dos carros que passavam por mim, me eram sons caros, me acalmavam. O carro parou de repente. Fui retirado por um colega e colocado na minha sala. Me deram água e café. Alguém bate na porta.
— Entra.
— N..., como você tá?
— Eu vou ser preso?
— Por causa do drogado? A gente já deu um jeito nisso, ninguém vai notar.
— Ótimo. E o filho da mulher?
— Já encaminhamos o garoto para o orfanato municipal. Falamos com ele, me disseram do seu pedido.
— Perfeito.
O orfanato municipal, eu já sabia, recebe a maior parte da ajuda e doações da paróquia da rua 52... Eu mereço meu destino, juro que mereço. Mas a mulher e os meninos não, não, não mereciam. E mais um dia se passa na cidade dos insetos, onde nossa sina cruel e vil se faz visível através das almas inocentes. Eternamente impotentes, pagamos um dívida infinita à ninguém, nadando nus em um mar de canivetes e facas, onde a consciência se desfaz e o desespero é cada vez mais cutâneo.
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